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Bola de Couro
Bola de CouroFelipe Rauen

Preocupante.



Dizem alguns que o empate no jogo de ontem contra o Bahia foi um bom resultado.

Afinal, foi um jogo fora de casa, saímos perdendo por 2x0 e conseguimos igualar o placar, desperdiçando, assim como eles, boas chances de voltar com uma vitória que poderia ser o início de redenção.

Sim, teria sido, fosse outro o contexto que vivêssemos, qual seja a preocupante situação de um time que há oito partidas não vence, dentre elas três jogadas em casa e que, atenção para o ponto, se estava preocupando pela inoperância dos atacantes, agora começou a assustar pela facilidade com que a defesa toma gols.

Estamos fora da chamada “zona de rebaixamento” por apenas um detalhe – maior número de gols marcados do que a Portuguesa, time da segunda divisão do campeonato estadual de São Paulo. Temos o quinto maior número de gols marcados, paradoxalmente a minoria por atacantes, mas ao mesmo tempo a nossa defesa é a que mais gols sofreu dentre todos os vinte participantes. Mais do que o próprio Atlético-GO!

Com este quadro, qualquer descuido poderá ser fatal e abalar seriamente o trabalho que a atual diretoria planejou e vem executando para o nosso Coritiba. Um novo rebaixamento seria mortal, impensável.

Se não vencemos em casa partidas onde teoricamente nos apresentávamos como favoritos – Botafogo, Sport e Palmeiras (este principalmente por vir nos enfrentar com uma formação desfalcadíssima) e se fora do Couto Pereira apenas conseguimos dois pontos ganhos em dezoito disputados, mudanças são necessárias, pois do contrário a tendência infelizmente será a de passarmos todo o campeonato brasileiro tentando sair ou não se aproximar da zona do rebaixamento.

E qual seria essa mudança radical? Sinceramente já não sei bem o que dizer além de reafirmar o que lancei nas duas últimas colunas. A composição do elenco para este ano foi mal feita e a gerência ou departamento de futebol não soube contratar. O problema principal, embora alguns entendam que seria o técnico, o que respeito embora discorde em termos, mas aceito que ele também erra (como errou ontem ao deixar no banco o Ayrton), o principal, repito, é a má qualificação do elenco.

Não é possível entender que o clube que já tinha atletas não muito confiáveis – Jonas, Eltinho, Emerson Santos, Júnior Urso, Roberto, Everton Costa e Marcel, para referir apenas aqueles em relação aos quais há quase unanimidade – pense que está recompondo o elenco com Chico, França, Robinho, Leonardo e outros sobre os quais ainda nada se sabe, pois ainda não jogaram.

Com maus jogadores, raros técnicos podem se sair bem. Obrigam-se a formar esquema defensivo e a tentar se aproveitar de erros do adversário, pois do contrário nada alcançam de positivo (são honrosas exceções, cujo exemplo clássico é o do Felipão com o Palmeiras). Mas com bons jogadores, basta um técnico que não invente e não atrapalhe. Os boleiros se entendem em campo e conseguem eles mesmos mudar o curso de um jogo.

A história do futebol está repleta de exemplos a respeito. A seleção brasileira de 1970, que talvez a maioria dos amigos não tenha visto jogar, quase só tinha craques na mais pura compreensão do termo, Pelé, Gerson, Carlos Alberto, Rivelino e outros tantos. Alguém acredita que o seu sucesso se deveu ao incipiente Zagallo, que começava carreira de treinador e foi chamado a ultima hora para o comando? O Flamengo campeão do mundo com Zico, Júnior, Adílio e outros a mesma coisa. Tinha um técnico iniciante, mas com tantos craques bastou ele não inventar (como fez no Coritiba...) para ter sucesso. E muitos outros exemplos poderiam ser dados.

Mas e agora? A solução sem dúvida seria a contratação de dois ou três jogadores bem mais qualificados do que a grande maioria que temos. Mas como e o que fazer se a direção diz não dispor de dinheiro para novas contratações (embora, repito o que disse em coluna anterior, somado o gasto com Chico, Robinho “et alii” poderíamos ter trazido pelo menos um jogador diferenciado)?

Sinto-me sem respostas, e espero que nossa direção logo as apresente. Ela, a direção, merece nossa confiança pelo muito que já fez. Isso deve ser sempre reconhecido e jamais negado. Foram homens que, sob a liderança do Vilson Andrade, assumiram um Coritiba execrado, humilhado e sem forças e o refundaram. Mas nem por isso, considerando a dinâmica do futebol, estão imunes a críticas. Ainda há tempo para que algo seja feito. A solução este modesto escriba, mais torcedor do que conhecedor de futebol, não se atreve a palpitar, deixa para os mais entendidos.

Fui ao site para postar estar coluna e voltei quando vi a notícia da saída, a pedido, do Vice-Presidente de Futebol Ernesto Pedroso. Espero – sem nada especular a respeito pois de nada sei – que se trate de uma mudança decorrente de novo direcionamento estratégico para o clube. Não se muda uma administração tão somente para mudar e ficar tudo como está. Confio na liderança e qualificação administrativa do Presidente Vilson para que comande a reação da instituição. Afinal, administrar um clube de futebol é tarefa extremamente difícil e delicada, e o dirigente pode dormir com os louros da vitória mas se sobre eles se mantiver deitado pode acordar com os escombros da derrota. A sabedoria está em antever tais momentos e agir em tempo. O que espero com todo ardor de Coritibano que vive seu amor pelo clube há mais de cinquenta décadas.
Sou sócio, ajudo a construir o meu Coritiba.

Sobre o autor

Felipe Rauen
Benedito Felipe Rauen Filho, conhecido como Felipe Rauen, é coxa-branca de terceira geração, pois tanto seu avô como seu pai também o eram. Em parte da infância e da juventude morou na rua Maria Clara, a cem metros do estádio do Coritiba, do qual desde casa sentia o "cheiro".

Transferiu residência para o Rio Grande do Sul em 1976, onde iniciou carreira como Juiz de Direito, hoje aposentado. Está aculturado naquele Estado em vários aspectos, mas jamais no futebol, pois não adotou time local e torce somente para o Coritiba. É conhecido em todos os círculos que frequenta em terras gaúchas como coxa-branca, conseguindo que inúmeros amigos gremistas e colorados tenham o Coritiba como segundo time ou pelo menos mostrem por ele simpatia. Em 2009 se tornou Cônsul do Coritiba em Porto Alegre, permanecendo por vários anos. Cardiopata, dá trabalho regular ao cardiologista em razão das emoções vividas com e pelo Coritiba, mas tem certeza de que o coração coxa-branca se manterá forte ainda muito tempo para ver o clube alcançar mais e mais glórias.

Sobre o blog

O nome “Bola de Couro” serve para revelar a geração do autor, que acompanha o Coritiba desde o tempo em que elas eram efetivamente de couro natural, e não sintéticas como hoje. Além de estar atento ao futebol moderno, especialmente graças à tecnologia que tornou o mundo uma aldeia global, o blog de vez em quando trará algumas reminiscências das tantas glórias de que o Coritiba é coberto e que estão mais na memória de cada um do que em imagens físicas, atendendo também a um nicho da “velha-guarda” de Coxanautas que se manifestou desde a primeira coluna do autor. Mas todos, de qualquer geração, serão bem-vindos a colaborar e criticar em espaço que se pretende democrático.
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