O julgamento dos intocáveis.
“Não se pode agir como Dario III, rei da Pérsia, quando foi informado de que fora derrotado na guerra contra Alexandre da Macedônia. Não gostou da mensagem e por isso mandou matar o mensageiro que lhe trouxe a notícia”.
Na última coluna, “O julgamento dos indomáveis”, fui alertado por um leitor de que cometera um erro de redação, pois no corpo do texto escrevera “os intocáveis” em lugar do nome pelo qual ficaram conhecidos. Editei a coluna e corrigi, o que, vejo agora, não era necessário.
Premonição no primeiro caso e ato falho do subconsciente no segundo, sem dúvida.
A decisão do conselho deliberativo de ontem, pelos votos da minoria que não permitiu a maioria qualificada necessária para exemplar punição dos maus coritibanos envolvidos no episódio, foi lamentável, leniente, frouxa e conivente.
Não pelo voto da maioria dos bons coritibanos integrantes do conselho, que infelizmente não foi suficiente, fique claro. Estes agiram bem. Mas pelos tantos que votaram contrariamente e mais ainda pelos que se abstiveram de modo pusilânime (quais as razões para comparecerem à reunião se não iriam votar? Apenas assistir à sessão? Ou medo e vergonha de votar publicamente? Lembre-se que a abstenção ao fim e ao cabo resultou em absolvição por não permitir a maioria qualificada).
A renúncia posterior do principal envolvido lembra a do Collor, quando do seu impeachment. Mas o Senado mesmo assim o julgou e declarou inelegível por oito anos. No caso do Coritiba, o ato de renúncia, que caracteriza admissão indireta da culpa pelo mal feito, não acarreta inelegibilidade e não obstará a que logo ali o renunciante se candidate novamente. Como ainda não vi tudo neste mundo, apesar da minha idade, não me espantarei se um dia ele e outros voltarem ”nos braços do povo”?
Triste o que aconteceu. Se o nome do Coritiba foi denegrido e levado à chacota pelo episódio dos “intocáveis” (agora não errei a redação), que se dirá agora? A revolta e desânimo entre os torcedores é praticamente unânime. Muitos anunciando que deixarão a condição de sócios, outros que não mais acompanharão o clube. Todos muito desanimados e envergonhados.
Eu mesmo, não fosse a emoção ser má conselheira, revoltado em um primeiro momento tive vontade de renunciar à condição honorífica de cônsul e até da de sócio. Mas não vou fazê-lo. Primeiro porque no bem ou no mal sou coritibano e jamais abdicarei dessa condição. E segundo porque espero, é o que me sobra, que o episódio sirva para reflexão e catarse dos bons coritibanos, que são muitos, e que os envolvidos, se não o foram ontem, que pelo voto sejam banidos da vida do clube.
Pelo menos o resultado contém uma pena moral aos agora “intocáveis”. A maioria qualificada não foi alcançada, mas a maioria expressiva, mesmo que insuficiente, mostrou reprovação aos atos e queria a punição dos envolvidos. Que vistam a carapuça e se exilem.
Este foi um péssimo ano para o Coritiba, com um final catastrófico em termos institucionais. Esperemos o que nos reserva o próximo ano.
Sobre o autor
Benedito Felipe Rauen Filho, conhecido como Felipe Rauen, é coxa-branca de terceira geração, pois tanto seu avô como seu pai também o eram. Em parte da infância e da juventude morou na rua Maria Clara, a cem metros do estádio do Coritiba, do qual desde casa sentia o "cheiro".
Transferiu residência para o Rio Grande do Sul em 1976, onde iniciou carreira como Juiz de Direito, hoje aposentado. Está aculturado naquele Estado em vários aspectos, mas jamais no futebol, pois não adotou time local e torce somente para o Coritiba. É conhecido em todos os círculos que frequenta em terras gaúchas como coxa-branca, conseguindo que inúmeros amigos gremistas e colorados tenham o Coritiba como segundo time ou pelo menos mostrem por ele simpatia. Em 2009 se tornou Cônsul do Coritiba em Porto Alegre, permanecendo por vários anos. Cardiopata, dá trabalho regular ao cardiologista em razão das emoções vividas com e pelo Coritiba, mas tem certeza de que o coração coxa-branca se manterá forte ainda muito tempo para ver o clube alcançar mais e mais glórias.
Transferiu residência para o Rio Grande do Sul em 1976, onde iniciou carreira como Juiz de Direito, hoje aposentado. Está aculturado naquele Estado em vários aspectos, mas jamais no futebol, pois não adotou time local e torce somente para o Coritiba. É conhecido em todos os círculos que frequenta em terras gaúchas como coxa-branca, conseguindo que inúmeros amigos gremistas e colorados tenham o Coritiba como segundo time ou pelo menos mostrem por ele simpatia. Em 2009 se tornou Cônsul do Coritiba em Porto Alegre, permanecendo por vários anos. Cardiopata, dá trabalho regular ao cardiologista em razão das emoções vividas com e pelo Coritiba, mas tem certeza de que o coração coxa-branca se manterá forte ainda muito tempo para ver o clube alcançar mais e mais glórias.
Sobre o blog
O nome “Bola de Couro” serve para revelar a geração do autor, que acompanha o Coritiba desde o tempo em que elas eram efetivamente de couro natural, e não sintéticas como hoje. Além de estar atento ao futebol moderno, especialmente graças à tecnologia que tornou o mundo uma aldeia global, o blog de vez em quando trará algumas reminiscências das tantas glórias de que o Coritiba é coberto e que estão mais na memória de cada um do que em imagens físicas, atendendo também a um nicho da “velha-guarda” de Coxanautas que se manifestou desde a primeira coluna do autor. Mas todos, de qualquer geração, serão bem-vindos a colaborar e criticar em espaço que se pretende democrático.
Ver comentários (8)
