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Bola de Couro
Bola de CouroFelipe Rauen

Mauricio.Fruet@céu para Gustavo.Fruet@terra.

Com o título acima, o ilustre colunista atleticano Augusto Mafuz se arvorou em porta-voz do além na sua coluna de hoje, 29 de outubro de 2012, psicografando, como se fosse o respeitado Chico Xavier, uma mensagem do falecido eminente prefeito Maurício Fruet, coritibano fiel, pai do candidato ontem eleito para a Chefia do Executivo municipal de Curitiba, e tratou de dar-lhe conselhos sobre como proceder em sua administração. Não, como poderiam todos esperar, no sentido de melhorar a saúde pública dentro dos limites que cabem ao Município, ou a educação pública ou o trânsito, enfim, algo de interesse realmente público, mas sim no tocante ao prosseguimento das obras do estádio da baixada.

Dispensando comentários sobre a indevida e invasiva conduta de querer colocar palavras na boca do ilustre e saudoso falecido e a pretensão de que este do além fizesse recomendações ao filho, - que foi eleito por méritos próprios e não por nepotismo - o conteúdo da coluna do referido colunista não resiste a um mínimo exame.

Primeiro, o conselho para que o novo prefeito não governe como político, mas como administrador é totalmente dispensável, desnecessário e até um tanto atrevido. Gustavo Fruet é homem com passado limpo, nunca envolvido e nem sequer apontado por prática de irregularidades e certamente vai administrar Curitiba com base nos princípio republicanos da impessoalidade, publicidade, moralidade, legalidade e eficiência (Constituição Federal, artigo 37). Não posso imaginar que o ilustre colunista e também operador do direito esperasse que fosse diferente. Ou teria temor de que sejam restaurados tais princípios na questão da Copa do Mundo?

Depois, a afirmação do colunista no sentido de que “só há segurança na sociedade quando o Estado cumpre os seus contratos e as suas obrigações” é correta em tese e assim deve ser em regra. Mas vige somente quando os contratos e obrigações foram firmados com base nos princípios acima referidos, na constitucionalidade e na legalidade.

Tanto o conceito merece temperamento, que o Supremo Tribunal Federal editou a Súmula nº 346, com o seguinte teor: “A administração pública pode declarar a nulidade dos seus próprios atos”. O entendimento do STF foi enfatizado em súmula mais recente, a de nº 473, segundo a qual “A ADMINISTRAÇÃO PODE ANULAR SEUS PRÓPRIOS ATOS, QUANDO EIVADOS DE VÍCIOS QUE OS TORNAM ILEGAIS, PORQUE DELES NÃO SE ORIGINAM DIREITOS; OU REVOGÁ-LOS, POR MOTIVO DE CONVENIÊNCIA OU OPORTUNIDADE, RESPEITADOS OS DIREITOS ADQUIRIDOS, E RESSALVADA, EM TODOS OS CASOS, A APRECIAÇÃO JUDICIAL.”.

E se isso não bastasse, remetendo-me aos textos que aqui produzi anteriormente sobre a inconstitucionalidade dos atos em benefício do CAP, lembro que a desobediência à Constituição Federal é vício que não convalesce nunca, não prescreve e que não cede nem mesmo diante da necessidade de segurança jurídica (como falar em segurança jurídica em relação a ato ilegal e inconstitucional?). Este não é um espaço jurídico, e não quero cansar os caros leitores com mais citações da doutrina e da jurisprudência, mas cabe lembrar ainda que a Constituição Federal é sempre suprema, é a lei das leis, e não se curva perante leis ordinárias, decretos, atos administrativos ou contratos públicos que a violem. Admitir em contrário é que violaria a segurança jurídica.

Fique certo o nobre colunista e os torcedores do seu clube, que se o novo prefeito vier a rever atos que ferem os conceitos republicanos, não o fará por ser coxa-branca, como sutilmente alude o texto, mas sim por ser um administrador republicano tal como o próprio escriba pede que seja. Claro que, se tudo não for atropelado antes de 1º de janeiro de 2013, quando o novo prefeito assumirá.

Estou de acordo somente com uma afirmação do ilustre colunista, no sentido de que o problema não é político, nem de rivalidade clubística, mas da credibilidade pública da gestão da obra. Exatamente é isso que nós, cidadãos, queremos no tocante às obras da baixada. Que a credibilidade das gestões estadual e municipal não se deixe ferir praticando atos de favorecimento, ilegais e inconstitucionais.

Por fim, embora ao contrário do colunista eu não tenha o dom de ouvir mortos e transmitir seus recados (sem nenhum desrespeito a qualquer religião), se pudesse diria ao Prefeito eleito que o seu pai teria mandado dizer “cuidado com os aduladores e falsos profetas”.

PS. A forma do meu texto não foi inspirada em ninguém.

Sobre o autor

Felipe Rauen
Benedito Felipe Rauen Filho, conhecido como Felipe Rauen, é coxa-branca de terceira geração, pois tanto seu avô como seu pai também o eram. Em parte da infância e da juventude morou na rua Maria Clara, a cem metros do estádio do Coritiba, do qual desde casa sentia o "cheiro".

Transferiu residência para o Rio Grande do Sul em 1976, onde iniciou carreira como Juiz de Direito, hoje aposentado. Está aculturado naquele Estado em vários aspectos, mas jamais no futebol, pois não adotou time local e torce somente para o Coritiba. É conhecido em todos os círculos que frequenta em terras gaúchas como coxa-branca, conseguindo que inúmeros amigos gremistas e colorados tenham o Coritiba como segundo time ou pelo menos mostrem por ele simpatia. Em 2009 se tornou Cônsul do Coritiba em Porto Alegre, permanecendo por vários anos. Cardiopata, dá trabalho regular ao cardiologista em razão das emoções vividas com e pelo Coritiba, mas tem certeza de que o coração coxa-branca se manterá forte ainda muito tempo para ver o clube alcançar mais e mais glórias.

Sobre o blog

O nome “Bola de Couro” serve para revelar a geração do autor, que acompanha o Coritiba desde o tempo em que elas eram efetivamente de couro natural, e não sintéticas como hoje. Além de estar atento ao futebol moderno, especialmente graças à tecnologia que tornou o mundo uma aldeia global, o blog de vez em quando trará algumas reminiscências das tantas glórias de que o Coritiba é coberto e que estão mais na memória de cada um do que em imagens físicas, atendendo também a um nicho da “velha-guarda” de Coxanautas que se manifestou desde a primeira coluna do autor. Mas todos, de qualquer geração, serão bem-vindos a colaborar e criticar em espaço que se pretende democrático.
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