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Bola de Couro
Bola de CouroFelipe Rauen

Futebol moderno e futebol antigo.


É permanente a discussão entre os da minha geração (e os não tão maduros assim) e os modernos acompanhantes do futebol sobre qual seria o melhor, o “daquele tempo”, onde o que se sobressaia era a atuação do craque, aliada a algum coletivismo, ou o de agora, onde prepondera o preparo físico e o coletivo, alguns times com um ou outro craque e outros até sem nenhum, mas mesmo assim muitas vezes vitoriosos.

Desde já um parêntese. Por “craque” se entenda aquele jogador excepcional, que muito se destaca da média e é capaz de decidir uma partida em lance genial.

Assim, “naquele tempo” tivemos Zico, Rivelino, Garrincha, Maradona e o inigualável Pelé, referências nacionais e mundiais. E na nossa aldeia tivemos Miltinho, Kruger, Zé Roberto e outros. E todos eles tinham companheiros igualmente geniais, cuja relação seria cansativa lembrar aqui (Didi, Ademir da Guia, Leocádio, Alex, a lista não terminaria).

Hoje, poucos times têm um jogador diferenciado que possa merecer o título de craque na exata acepção do termo. Neymar no Santos e Messi no Barcelona, sem dúvida, e quem mais? Sei, os amigos indicarão outros, mas penso que se refletirem bem e compararem verão que serão poucos os que eles encontrarão no mesmo nível daqueles ou no mínimo haverá controvérsia. Alguns espanhóis, talvez, mas a seleção ibérica se destaca muito mais pelo coletivo.

Por outro lado, “naquele tempo” pouca atenção se dava para a preparação física e para a marcação. Esta, para o craque, era uma ofensa. Só marcavam o adversário os jogadores do centromédio (era assim que se chamavam os volantes) para trás. Houve uma evolução a partir da Copa de 1970 quando, na seleção brasileira, além dos centromédios e zagueiros Pelé, Tostão e Rivelino se dignaram a marcar. Eram craques indiscutíveis, mundialmente reconhecidos, mas souberam que já estava na hora de terminar aquela fase em que o craque ficava aguardando que os demais lhe passassem a bola para então tentar a jogada de gênio.

Hoje a preparação física é outra - acredito que se uma máquina do tempo pudesse colocar alguns daqueles craques do passado em confronto com alguns dos jogadores do presente, estes poderiam levar a pior no começo do jogo, mas logo se imporiam pela melhor disposição física. E hoje é dado mais valor à marcação e ao coletivo, e muito à velocidade, com toques rápidos de bola, de modo que mesmo times sem craques, mas com jogadores bons (bom não é craque, é bom) e bem preparados física e coletivamente podem chegar longe como chegou o Coritiba em 1985 e, como esperamos, dará certo na final que se aproxima.

Ontem, no jogo contra o limitado Sport, vi um Coritiba moderno e um “daquele tempo” em dois períodos distintos da partida. Não vou dissecar o jogo e tampouco fazer uma análise pessimista, ainda mais quando estamos em semana que todo o pensamento positivo é bem vindo. Mas vou tentar mostrar o que me saltou aos olhos durante e ao final do jogo.

O Coritiba moderno se mostrou na boa marcação efetuada até certa altura do jogo e na velocidade da troca de passes entre Lincoln e Tcheco, em especial no gol deste que, nem parecendo estar se aproximando dos quarenta nos de idade, chegou à área adversária como um foguete. Foi futebol moderno também o primeiro gol do Coritiba quando Tcheco anteviu a possibilidade do deslocamento do Anderson Aquino e rapidamente lançou a bola entre os zagueiros e este último se deslocou velozmente. Aliás, neste gol, o Marcel, ainda que com todas as suas limitações, teve a inteligência de se deslocar e atrair um dos marcadores de modo a facilitar as coisas para o Anderson Aquino. Destes, que jogaram futebol moderno, mais não se poderia exigir. Lincoln e Tcheco porque sem dúvida a idade pesou e aos poucos foram diminuindo o pique. E o Anderson Aquino pelo prejuízo da lesão que sofreu e o obrigou a sair.

E o Coritiba “daquele tempo” apareceu notadamente a partir da entrada do Geraldo e do Rafael Silva (deixo de lado referências a alguns outros pelo mesmo motivo exposto ao final do antepenúltimo parágrafo). Aquele, imaginando que é craque e vai decidir o jogo sozinho, ao receber a bola abaixa a cabeça e tenta passar por tantos adversários quantos lhe apareçam pela frente. Passa por um, talvez por dois, mas em seguida perde a grande maioria das bolas. E o Rafael Silva parece imaginar que, como promessa e revelação, não pode se submeter à tarefa comum de marcar. Se perder a bola, fica onde está esperando que algum companheiro a recupere, não raro sendo visto com as mãos na cintura. Quem ele pensa que é? Coloquem-no fechado em uma sala para assistir vídeos da dedicação do Tcheco, com vinte anos a mais do que ele, até que aprenda que futebol é um jogo coletivo. Se continuar assim, vai ser uma eterna promessa como tantos foram.

Foi um comentário em forma de desabafo, mas que em nada deve atingir a nossa perspectiva positiva para o jogo de quinta-feira, pois, repito, é somente limitado ao jogo de ontem.

Quanto à decisão, time por time penso que estamos um pouco acima do Palmeiras e poderemos voltar de Barueri com um resultado positivo, ainda que seja um empate com gols. Tudo vai depender, além de uma boa jornada técnica, da dedicação e conscientização da equipe. Futebol coletivo, marcação e velocidade e, de vez em quando, um lampejo de craque dentre os nossos bons. A fórmula do futebol moderno para vencer.

Sou sócio, ajudo a construir o meu Coritiba.

Sobre o autor

Felipe Rauen
Benedito Felipe Rauen Filho, conhecido como Felipe Rauen, é coxa-branca de terceira geração, pois tanto seu avô como seu pai também o eram. Em parte da infância e da juventude morou na rua Maria Clara, a cem metros do estádio do Coritiba, do qual desde casa sentia o "cheiro".

Transferiu residência para o Rio Grande do Sul em 1976, onde iniciou carreira como Juiz de Direito, hoje aposentado. Está aculturado naquele Estado em vários aspectos, mas jamais no futebol, pois não adotou time local e torce somente para o Coritiba. É conhecido em todos os círculos que frequenta em terras gaúchas como coxa-branca, conseguindo que inúmeros amigos gremistas e colorados tenham o Coritiba como segundo time ou pelo menos mostrem por ele simpatia. Em 2009 se tornou Cônsul do Coritiba em Porto Alegre, permanecendo por vários anos. Cardiopata, dá trabalho regular ao cardiologista em razão das emoções vividas com e pelo Coritiba, mas tem certeza de que o coração coxa-branca se manterá forte ainda muito tempo para ver o clube alcançar mais e mais glórias.

Sobre o blog

O nome “Bola de Couro” serve para revelar a geração do autor, que acompanha o Coritiba desde o tempo em que elas eram efetivamente de couro natural, e não sintéticas como hoje. Além de estar atento ao futebol moderno, especialmente graças à tecnologia que tornou o mundo uma aldeia global, o blog de vez em quando trará algumas reminiscências das tantas glórias de que o Coritiba é coberto e que estão mais na memória de cada um do que em imagens físicas, atendendo também a um nicho da “velha-guarda” de Coxanautas que se manifestou desde a primeira coluna do autor. Mas todos, de qualquer geração, serão bem-vindos a colaborar e criticar em espaço que se pretende democrático.
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