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Bola de Couro
Bola de CouroFelipe Rauen

Dois prá lá, dois prá cá.




Vou revelar aos amigos um episódio da minha vida, não para que a coluna trate de mim, mas sim para contextualizar a conclusão que vou tirar sobre o atual Coritiba.

Quando eu tinha quarenta e cinco anos sofri um forte infarto que me fez repensar a vida. Trabalhava muito, quase não tinha lazer que não um futsal uma vez por semana – sim amigos, já tratei bem a bola – e era muito estressado. Aconselhado pelo médico comecei a diminuir o ritmo, consegui remoção para uma vara com menos processos, e em especial comecei a procurar me envolver com lazer.

Amigos me disseram que uma boa atividade seria a dança de salão, pois sempre seria pretexto para ir a uma festa, um clube, um bom jantar e ainda dançar com a minha mulher. O problema é que eu não sabia dançar, era um pé-de-chumbo. Tratei então de me matricular em uma academia de dança.

Frequentei as aulas por dois meses, ao final dos quais o professor me chamou em um canto, colocou a mão em meu ombro e fraternalmente me disse que não queria mais receber meu dinheiro sem razão. Eu, definitivamente não levava jeito. Aconselhou-me, já que eu fazia tanta questão de dançar, que praticasse o “dois pra lá, dois pra cá”. “O senhor não vai se consagrar, mas também não vai fazer papelão. O problema é que não sairá do lugar”, disse-me. Um pouco deprimido aceitei o conselho e até hoje, embora sem entusiasmo o pratico.

Vendo a campanha do Coritiba atual, sou levado a imaginar que nosso técnico e alguns jogadores tiveram a mesma aula e o mesmo conselho e o estão seguindo. Campeões paranaenses invictos e por antecipação, dois pra lá. Finalista da Copa do Brasil, dois pra lá. Perda do título da mesma Copa com uma escalação inesperada e aberrante e um “frango”, dois pra cá. 5 x 0 no Botafogo, dois pra lá. Sofrer três gols do modestíssimo Ceará, dois pra cá. Boa vitória sobre o Cruzeiro, dois pra lá. Partida medíocre contra o não menos medíocre Figueirense, dois pra cá. Marcos Aurélio o craque do primeiro semestre, dois pra lá. O mesmo Marcos Aurélio descomprometido nos últimos tempos, dois pra cá. E por ai fomos e vamos, basta consultar a tabela e examinar a queda na atuação de alguns. Como disse meu professor, dois passos para um lado, dois para o outro, dois passos para frente, dois para trás, e não saímos do lugar. Não fazemos papelão e nem nos consagramos.


O comentário do comentarista:

Sempre leio os comentários que os Coxanautas fazem às minhas colunas. Uns apenas para elogiar; outros para elogiar e acrescentar argumentos que não me ocorreram; outros ainda apenas para discordar de forma elegante; outros de forma veemente ou até ríspida; mais alguns para discordar e acrescentar argumentos. A todos respeito e todos sempre me fazem refletir e avaliar meus conceitos. São indispensáveis os comentários, pois sem os elogios talvez ficasse em ânimo e sem as críticas talvez não refletisse sobre os erros e os corrigisse.

Assim, a partir desta coluna, vou transcrever um comentário, aquele que me chamou mais a atenção a cada coluna, seja em que sentido for. Ressalto que inúmeros poderiam ser publicados e os que não o forem não é porque não tenham também impressionado. Registro também que presumo que estou tacitamente autorizado a fazer a reprodução, uma vez que quando o Coxanauta lança o seu comentário está tornando-o público. Caso algum dos amigos não aceite que o faça, peço que assim comunique.

Na última coluna, “Novo Estádio e saudades do atual, como conciliar”, chamou-me atenção o comentário do Coxanauta que assina “artigas_cfc”, que disse: “O Alto da Gloria será onde o Coritiba estiver!". Perfeito.

Sobre o autor

Felipe Rauen
Benedito Felipe Rauen Filho, conhecido como Felipe Rauen, é coxa-branca de terceira geração, pois tanto seu avô como seu pai também o eram. Em parte da infância e da juventude morou na rua Maria Clara, a cem metros do estádio do Coritiba, do qual desde casa sentia o "cheiro".

Transferiu residência para o Rio Grande do Sul em 1976, onde iniciou carreira como Juiz de Direito, hoje aposentado. Está aculturado naquele Estado em vários aspectos, mas jamais no futebol, pois não adotou time local e torce somente para o Coritiba. É conhecido em todos os círculos que frequenta em terras gaúchas como coxa-branca, conseguindo que inúmeros amigos gremistas e colorados tenham o Coritiba como segundo time ou pelo menos mostrem por ele simpatia. Em 2009 se tornou Cônsul do Coritiba em Porto Alegre, permanecendo por vários anos. Cardiopata, dá trabalho regular ao cardiologista em razão das emoções vividas com e pelo Coritiba, mas tem certeza de que o coração coxa-branca se manterá forte ainda muito tempo para ver o clube alcançar mais e mais glórias.

Sobre o blog

O nome “Bola de Couro” serve para revelar a geração do autor, que acompanha o Coritiba desde o tempo em que elas eram efetivamente de couro natural, e não sintéticas como hoje. Além de estar atento ao futebol moderno, especialmente graças à tecnologia que tornou o mundo uma aldeia global, o blog de vez em quando trará algumas reminiscências das tantas glórias de que o Coritiba é coberto e que estão mais na memória de cada um do que em imagens físicas, atendendo também a um nicho da “velha-guarda” de Coxanautas que se manifestou desde a primeira coluna do autor. Mas todos, de qualquer geração, serão bem-vindos a colaborar e criticar em espaço que se pretende democrático.
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