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Bola de Couro
Bola de CouroFelipe Rauen

De degrau em degrau.

Alguém disse certa vez, não lembro quem, que a torcida do Coritiba é muito exigente e que, de exigente para chata, só faltava uma vírgula. Não é bem assim, há evidente exagero, mas que foi uma frase inteligente e instigadora, sem dúvida foi. Nem todos dentre os exigentes são como o amigo que criei em uma de minhas primeiras colunas, o Aderbal, um permanente insatisfeito que, mesmo quando o time dá uma goleada, se preocupa mais em apontar os gols perdidos do que os feitos.

Pois bem, dentre os exigentes, mas que procura ser lúcido e não se precipitar tanto na depressão como na euforia em relação às atuações do Coritiba, penso que me encontro eu. Salvo, é claro, quando de algumas conquistas quando deixo de lado a racionalidade, entregando-me à paixão, assim como o faço quando de um grande fracasso. Afinal, sou torcedor antes de ser colunista. Mas, como o momento não é ainda de conquista e muito menos de fracasso vou procurar ser racional nesta abordagem.

A goleada de ontem, pelo que li nos dezenas de comentários aqui no Coxanautas, deixou a torcida com grande euforia – justificada pelo momento, sem dúvida – mas talvez passando um pouco do ponto. O atleTIBA estaria ganho de goleada, o primeiro turno já seria nosso e o tetra estaria assegurado. Vamos ficar confiantes e entusiasmados. Eu também fiquei eufórico com o resultado de ontem. Pessimismo não leva a conquistas. Mas vamos seguir com os pés no chão, com os olhos bem abertos, pois futebol é um esporte em que uma equipe desponta como a melhor e em tese é a favorita – e o atual Coritiba sem dúvida o é nos limites paranaenses – mas a soberba, o tal do “salto alto” e o sobrenatural do Almeida (personagem do Nélson Rodrigues), às vezes aprontam surpresas negativas. Não nos esqueçamos de que alguns atleTIBAs registraram resultados surpreendentes em favor da equipe menos qualificada no momento. Não precisamos ir longe para, como bem disse antes o Popini em sua coluna, recordar que já perdemos dois atleTIBAs em que figurávamos como favoritos e cujo resultado nos causou dano irreparável. E da mesma forma algumas vezes ganhamos quando eles eram os favoritos. Em clássico jamais há “zebra”.

Isso não significa, de modo algum, que não deva ser enaltecido o marcante crescimento da equipe desde a má exibição contra o Arapongas, passando por um excelente primeiro tempo contra o Toledo e chegando à apresentação de gala de ontem.

A equipe, no tocante ao conjunto teve uma atuação perfeita, com variações táticas evidentes conforme o transcurso do jogo, todas com sucesso. Méritos, sem dúvida, do nosso treinador.

E muitas atuações individuais foram de merecer aplausos. Patrick, reforçando a boa impressão que causara na primeira etapa do jogo contra o Toledo, foi espetacular, o melhor do jogo. Será que mais uma vez encontramos a solução para a lateral – ou ala como queiram – esquerda através de um destro? Lembremo-nos que o campeoníssimo Nilo e o campeão brasileiro Dida, que foram os melhores laterais ou alas esquerdos dos últimos tempos afora o Adriano, eram destros. Rafinha, desde o jogo contra o Toledo mostrou que voltou a ser o craque a que estávamos acostumados. Gil, além de eficiente e taticamente perfeito, tem sido um bravo, um leão em campo. E o Leandro Almeida, o que dizer senão que dá uma confiança que se solidificará quando ele puder atuar em conjunto com o Emerson? Até o Robinho se apresentou bem, embora ainda espere dele uma boa atuação contra um time forte. Na verdade, afora umas pequenas atrapalhadas do Pereira, ninguém jogou mal. Aliás, tantas foram as boas atuações individuais, que o Alex se deu ao luxo de só coordenar a equipe, sem precisar se desgastar em um gramado que poderia apresentar risco em face da forte chuva. (Aqui um parêntese: cabe louvar o “flair play” do time do Rio Branco que, massacrado e humilhado, jamais usou de violência como meio para conter o adversário).

Enfim, amigos, o caminho está aberto para a conquista do estadual e para o crescimento de modo a que sejamos protagonistas nas disputas nacionais, não apenas para fazer boa campanha, mas para disputar, e melhor ainda, conquistar um título. Mas, talvez por mais velho do que por sabido, relembro o que disse em parágrafo anterior. Nada de euforia desmedida, de desprezo aos adversários ou de contar com a conquista antes que ela aconteça. Estamos em fase de crescimento, mas ninguém sobe ao topo de uma escada se não o fizer degrau por degrau.

Parece uma redundância, o que vou dizer para finalizar, mas não é. Somos os melhores, mas temos que ser os melhores.


Sobre o autor

Felipe Rauen
Benedito Felipe Rauen Filho, conhecido como Felipe Rauen, é coxa-branca de terceira geração, pois tanto seu avô como seu pai também o eram. Em parte da infância e da juventude morou na rua Maria Clara, a cem metros do estádio do Coritiba, do qual desde casa sentia o "cheiro".

Transferiu residência para o Rio Grande do Sul em 1976, onde iniciou carreira como Juiz de Direito, hoje aposentado. Está aculturado naquele Estado em vários aspectos, mas jamais no futebol, pois não adotou time local e torce somente para o Coritiba. É conhecido em todos os círculos que frequenta em terras gaúchas como coxa-branca, conseguindo que inúmeros amigos gremistas e colorados tenham o Coritiba como segundo time ou pelo menos mostrem por ele simpatia. Em 2009 se tornou Cônsul do Coritiba em Porto Alegre, permanecendo por vários anos. Cardiopata, dá trabalho regular ao cardiologista em razão das emoções vividas com e pelo Coritiba, mas tem certeza de que o coração coxa-branca se manterá forte ainda muito tempo para ver o clube alcançar mais e mais glórias.

Sobre o blog

O nome “Bola de Couro” serve para revelar a geração do autor, que acompanha o Coritiba desde o tempo em que elas eram efetivamente de couro natural, e não sintéticas como hoje. Além de estar atento ao futebol moderno, especialmente graças à tecnologia que tornou o mundo uma aldeia global, o blog de vez em quando trará algumas reminiscências das tantas glórias de que o Coritiba é coberto e que estão mais na memória de cada um do que em imagens físicas, atendendo também a um nicho da “velha-guarda” de Coxanautas que se manifestou desde a primeira coluna do autor. Mas todos, de qualquer geração, serão bem-vindos a colaborar e criticar em espaço que se pretende democrático.
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