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Bola de Couro
Bola de CouroFelipe Rauen

Crédito e reconhecimento, sim. Imunidade, não.

A perda do título da Copa do Brasil foi bem absorvida pela magnífica torcida do Coritiba. Não que nos resignássemos e entendêssemos, como li e ouvi de alguns, que somente chegar à final já deveria nos satisfazer. Nada disso. Temos que ter grandes alvos e títulos nacionais são fundamentais para o crescimento e grandeza do clube.

Resignamo-nos, isso sim, por lembrar que há menos de um ano e meio estávamos no fundo do poço, envoltos em escombros, temendo amargar uma série C, ou nos tornarmos tal e qual o Santa Cruz do Recife, com dívidas impagáveis e como consequência sem condições de formar elenco para crescer. Parecia que restava de grandiosa apenas nossa torcida, com exceção dos aloprados que nos mancharam a imagem. Resignamo-nos por reconhecer que, depois de muito tempo, finalmente temos uma direção com os pés no chão e olhos no futuro. Resignamo-nos porque sabemos que agora temos uma equipe forte e competitiva, a qual decaiu nos últimos jogos daquele torneio apenas pela soma de alguns acontecimentos desfavoráveis. Aceitamos sem maiores protestos a perda do título por estarmos orgulhosos de ter uma equipe que deslumbrou ao Brasil com uma série inédita de vitórias consecutivas, com o ápice em goleada histórica sobre o Palmeiras.

Reconhecida, nossa torcida, agora composta por mais de trinta mil sócios, tão logo o árbitro encerrou a partida, antes mesmo que os torcedores do Vasco comemorassem a derrota que lhes deu o título, passou a aplaudir nosso time e a cantar o seu hino mais popular, abafando a comemoração carioca.

Comportamento irrepreensível e que só me orgulha por fazer parte dessa nação há mais de cinquenta anos.

Mas a aceitação do resultado não significa que, só pelo que foi feito até agora, qualquer juízo crítico esteja impedido de ser produzido, desde que racional, isento e com vista ao bem do clube. Os momentos de uma equipe de futebol são dinâmicos, evoluem ou involuem, assim como ocorre com qualquer clube, seja qual for a sua dimensão.

Apontar equívocos, mostrar que em um ou outro jogo a equipe não foi bem, que este ou aquele atleta, por mais conceituado que seja não teve bom rendimento em um determinado dia, que o técnico errou na escalação, no sistema tático ou nas substituições, ou que a diretoria errou em alguma contratação, não pode ser visto como desconsideração ao patamar a que chegamos, e muito menos como avaliação negativa.

Avaliação crítica, com honestidade, racionalidade e isenção, só vem em benefício do clube, uma vez que todas as análises que tenham tais pressupostos – não se incluem nelas as dos comentaristas sedizentes isentos, mas engajados a outros interesses – podem chegar aos olhos ou ouvidos da direção e comissão técnica, mostrando o que pensa a torcida, ou o que pensam os formadores de opinião, auxiliando na permanente reflexão que devem fazer a cada preparação para cada temporada e para cada jogo. Agir assim é agir em proveito do clube, ainda que possamos nós errar também ao pretender que determinada ação do clube ou da equipe teria sido equivocada, quando depois o tempo mostrar que foi acertada.

A obviedade diz que errar é humano e que todos têm o direito ao erro. Evidente que erros só podem acontecer por parte de seres pensantes, embora não seja “direito” e sim conduta própria, possível e previsível ao ser humano. Todos erramos e erraremos, ainda que às vezes o que seja erro na minha ótica não o seja na visão do leitor ou reciprocamente. Importante, como diz a sabedoria popular, é não repetir e nem persistir no erro e refletir quando nos apontam a prática.

Assim, tendo à frente um longo e difícil campeonato brasileiro, cujo início não está nos favorecendo, erros ou jornadas infelizes já aconteceram e poderão acontecer - esperamos que desde que dentro de certos limites logo recuperados - e todos nós estamos liberados para apontá-los de forma produtiva e como colaboração, sem que ao assim agir se possa ser tachado como pessimista, negativo ou se iguale ao meu amigo Aderbal.

Lua-de-mel um dia acaba, o que não pode terminar é o amor, o romance e a parceria, ainda que às vezes seja necessário “discutir a relação”, mas para isso é necessário que todos os partícipes se conduzam para um mesmo fim, no caso, a grandeza do Coritiba. Daí, de tempos em tempos se retorna ao estado de lua-de-mel.

Todos no Coritiba atual têm crédito e o nosso reconhecimento. Mas isso não significa que a conseqüência seja imunidade à crítica construtiva. Marcelo Oliveira é bom técnico? Excelente, mas quando errar, como aconteceu na final da Copa do Brasil, ninguém poderá se sentir impedido de apontar e nem merecerá a pecha de negatividade se a crítica for feita com lucidez, respeito e isenção. Edson Bastos é bom goleiro e todos bons goleiros estão sujeitos a um dia falhar gravemente? Sem dúvida, mas quando falhar poderemos apontar sem que isso implique em desqualificá-lo. A direção atual, capitaneada pelo Vice-Presidente Vilson, que refundou e reergueu o Coritiba, é merecedora de todo nosso reconhecimento? Evidente que sim, e palavras seriam poucas para mostrar, mas quando tomar alguma atitude equivocada ou contratar mal, nem por isso estará imune a crítica.

Enfim, confiamos muito no atual Coritiba e dele nos orgulhamos, mas que ninguém se deite sobre a cama do sucesso. Este depende de vencer uma luta a cada dia. Oferecer contribuição crítica, com vista à grandeza do Coritiba, é nosso dever, desde que assim se proceda inspirado por amor ao clube e visando seu crescimento e sempre sem esquecer de reconhecer os méritos.

A vida é assim, quem sobe alguns degraus na escada do sucesso deve procurar se aperfeiçoar para subir mais alguns ou pelo menos se manter aonde chegou. Se retroceder, não pense que terá imunidade à crítica apenas porque já havia chegado até lá. Ela, a crítica, se construtiva e racional, talvez o empurre degraus acima.





Sobre o autor

Felipe Rauen
Benedito Felipe Rauen Filho, conhecido como Felipe Rauen, é coxa-branca de terceira geração, pois tanto seu avô como seu pai também o eram. Em parte da infância e da juventude morou na rua Maria Clara, a cem metros do estádio do Coritiba, do qual desde casa sentia o "cheiro".

Transferiu residência para o Rio Grande do Sul em 1976, onde iniciou carreira como Juiz de Direito, hoje aposentado. Está aculturado naquele Estado em vários aspectos, mas jamais no futebol, pois não adotou time local e torce somente para o Coritiba. É conhecido em todos os círculos que frequenta em terras gaúchas como coxa-branca, conseguindo que inúmeros amigos gremistas e colorados tenham o Coritiba como segundo time ou pelo menos mostrem por ele simpatia. Em 2009 se tornou Cônsul do Coritiba em Porto Alegre, permanecendo por vários anos. Cardiopata, dá trabalho regular ao cardiologista em razão das emoções vividas com e pelo Coritiba, mas tem certeza de que o coração coxa-branca se manterá forte ainda muito tempo para ver o clube alcançar mais e mais glórias.

Sobre o blog

O nome “Bola de Couro” serve para revelar a geração do autor, que acompanha o Coritiba desde o tempo em que elas eram efetivamente de couro natural, e não sintéticas como hoje. Além de estar atento ao futebol moderno, especialmente graças à tecnologia que tornou o mundo uma aldeia global, o blog de vez em quando trará algumas reminiscências das tantas glórias de que o Coritiba é coberto e que estão mais na memória de cada um do que em imagens físicas, atendendo também a um nicho da “velha-guarda” de Coxanautas que se manifestou desde a primeira coluna do autor. Mas todos, de qualquer geração, serão bem-vindos a colaborar e criticar em espaço que se pretende democrático.
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