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ArquibancadaSergio Brandão

Paixão ou trabalho ?

Nós torcedores somos mesmo seres estranhos. Até domingo, Rafael Veiga era hostilizado pela torcida. A maioria dava o menino como peça morta dentro do grupo do Coritiba. Não só pelo futebol que vinha jogando nas ultimas rodadas, mas principalmente porque já era atleta muito mais do Palmeiras do que do Coritiba. Muitos avaliaram como traição a negociação que envolveu Palmeiras, o jogador e seu empresário.

Desde que a negociação foi concretizada, Veiga passou a ser persona non grata no Alto da Glória. Coincidentemente, depois disso, passou a não jogar mais o que vinha jogando. De um jogador que desequilibrava, passou a ser mais um ou ser avaliado abaixo da média, dentro de um grupo limitado. O que fez muita gente achar que o atleta apenas contava os dias para ir embora, alguns até acusando Veiga de fazer corpo mole.

O golaço de domingo, contra o Galo, parece ter mudado a opinião de grande parte da torcida. Da raiva nas redes sociais e no próprio estádio, a salvador da pátria. O vento virou a favor de Veiga. O desabafo do jogador que ainda se mantém em silêncio sobre o caso, veio num gesto na comemoração do gol, com Veiga indo em direção à torcida, no setor pro-tork, dando tapas no braço, mostrando que ali corre sangue.

Na verdade Veiga paga pela ineficiência de uma diretoria ou uma filosofia incorporada ao clube, que sempre se mostra incapaz de bancar um prata da casa, quando ganha algum destaque. Aliás, filosofia das últimas administrações do Coritiba. A lista dos que ganharam o mundo e foram fazer o nome e dinheiro em outro lugar, é muito grande. Muitos se deram bem, outros não. Alguns caíram no anonimato assim que saíram daqui.

Veiga será apenas mais um atleta que usou o Coritiba como vitrine, entre dezenas de jogadores que começam sua vida sonhando com algo melhor, coisa que qualquer um de nós faria, quando o assunto é trabalho. E é aí que mora o problema. Para eles é trabalho, para nós é paixão. Para Veiga é trabalho, como é trabalho para a maioria deles.

Deixem o Veiga em paz. Que vá embora. Aliás, acho que estamos no lucro com ele. Mesmo sendo jogador do Palmeiras, está nos ajudando a sair deste buraco, quando pediu ao Carpegiani para ficar no grupo até a última rodada do brasileiro. Este gol de domingo contra o Galo, já pagou o pedágio e quem sabe abre a porteira para outros gols salvadores que ainda precisamos nas rodadas que se seguem.

Não estou aqui para ensinar ninguém a torcer e muito menos dar a receita para um sofrimento menor com estas coisas. Acho que o problema na verdade é outro, é muito maior que isso. Está no texto acima, quando digo que muitos jogadores já fizeram isso e vão continuar fazendo, enquanto formos o Coritiba do tamanho que temos. Um clube de médio porte pra baixo, com uma folha salarial pouco atrativa, com dirigentes amadores no comando do clube, e que nos últimos anos não consegue sonhar com nada grande.

Uma questão fora de propósito esta, neste momento, não é? Justo agora quando o time parece dar sinal de que vai terminar o ano sofrendo menos do que em anos anteriores. Não é preciso dizer que aí está o segundo problema. Não podemos nos acostumar com tão pouco assim.

Sei que novamente não digo nenhuma novidade, mas é bom lembrar que o ano está acabando e nos repetimos como em anos anteriores. Se não estou enganado, há uns quatro anos pelo menos as coisas são iguais, ou até piores.

Por isso, é bom ir pensando como se mexer para 2017 que está aí na porta. Em menos de dois meses teremos o início da temporada e por enquanto o que se ouve é apenas algumas conversas sobre renovação de contrato com uns nomes que todos sabemos que não podem mais vestir a camisa do Coritiba.

2017 logo começa e nós damos indícios de que faremos as mesmas coisas, os mesmos erros de anos passados.

Sobre o autor

Sergio Brandão
O Coritiba está na minha alma, muito mais até que no coração. Aprendi a gostar de futebol assim, de alma e também de coração. Sou do tempo do Belfort Duarte, hoje Couto Pereira. Isso foi no início dos anos 60. De lá nunca mais saí. Na década de 70, o Coritiba me conquista definitivamente, quando montou times inesquecíveis, várias vezes campeão. Período que passei a frequentar programas de rádio para tentar ficar o mais próximo que podia do futebol. Foi a época de Dirceu Graeser, no famoso"Viva o Futebol", na Rádio Clube, depois Rádio Cruzeiro. Foi o meu começo nos meios de comunicação. Vivo do jornalismo há mais de 30 anos, dedicados ao Rádio e principalmente televisão. Hoje sou muito mais da arquibancada. Sou mais torcedor e menos jornalista, principalmente quando o assunto é Coritiba.

Sobre o blog

Sou jornalista há mais de 30 anos. A profissão e a condição de torcedor, me fizeram aprender a policiar posições quando escrevo para tv ou rádio. Isso me desenvolveu muito o lado crítico. Costumo dizer que futebol é uma coisa e esporte é outra, bem diferente. Basicamente porque o futebol se transformou num produto da mídia e envolve muito dinheiro. O esporte amador, não. Sem dinheiro ele apenas sobrevive. É o caminho que o vôlei começou a tomar, por exemplo, mas ainda passa longe de ser o sucesso que é o futebol. Gosto de escrever sobre os dois: esporte e futebol. Jornalismo é minha profissão, o Coritiba minha paixão. Será um prazer estar aqui com vocês falando sobre tudo isso.
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