Nascidos para sofrer
Dos meus filhos, um mora em São Paulo e a menor, de 13 anos, em Curitiba. Meu filho, hoje com 35 anos, estreou no Couto num Coritiba e Bangu, pelo Brasileiro no início dos anos 90. Gostou do canto da torcida “ Ei Bangú, vai tomar no … Nunca mais saiu do Couto, sempre que pode vai pra saudar mais uma vez o adversário que não é mais o Bangu, há muito tempo.
Minha filha, logo com 4 ou 5 anos, fez sua estreia num Coritiba e Londrina pelo Campeonato Regional, me pedindo pra ir junto quando eu já estava no carro, indo pro jogo. Fiquei desconfiado, achando que não seria um bom programa e que Helena não aguentaria 15 minutos. Fui preparado para terminar o jogo acompanhando pelo rádio. O programa não foi um grande sucesso, mas superou minhas expectativas. Helena seguiu até o fim da partida, desde que minhas atenções fossem divididas entre ela, o jogo, uns saquinhos de pipoca, sorvetes etc.
Helena passou a me acompanhar até os seus 9 anos em muitos jogos. Muitos no Brasileiro, nestes tempos de pouco futebol, com pouca qualidade, de poucas conquistas... quase nada para comemorar. Ou pelo menos nada que provocasse aquela paixão avassaladora. Não deu outra, o interesse foi sumindo. Hibernou onde o futebol dela ficou em duas frustrantes Copas do Mundo, desta vez com fracassos inesquecíveis da seleção canarinho. Imaginei que Helena riscaria o futebol definitivamente da sua lista de temas interessantes. Não foi o que aconteceu.
Subitamente redescobre o futebol pelo Coritiba, usando a mesma porta por onde entrou. Curiosamente neste período ainda de quase nenhuma qualidade. Se em tempos de Kleber Gladiador não se interessou muito, como explicar então, o interesse agora, em tempos de Gamalho e Pinho, com gols cada vez mais raros? Mesmo assim, a paixão só cresce naquele coraçãozinho.
No currículo de sócia, quando não está no Couto, acompanha todas as partidas pela TV, segue as lives COXAnautas, se informa quando algum compromisso impede de acompanhar o time que já se acomodou em seu coração. Chora nas decepções o choro dos inconformados, dos que ainda tentam entender como pode uma paixão assim, ser correspondida desta forma, com derrotas. Tento explicar, mas bato na tecla onde todos já bateram um dia e não encontram histórias novas.
O futebol tem uma magia inexplicável. talvez por isso chamam de magia. Os que se aproximaram de alguma explicação, como Nelson Rodrigues, Armando Nogueira e outros craques do texto que já não estão mais entre a gente, também não conseguiram aliviar esta dor de torcedor em dia de derrota. Também não explicaram a alegria nas vitórias, que na expressão de Helena, também está no rosto de todo torcedor de futebol.
Como explicar então, a frase pelo waht’s, na mensagem que ela me mandou hoje cedo, perto das 6 horas, em tom de desabafo: “que saudades de sofrer pelo nosso Coxa, pai”.
Como explicar a saudades de um sofrimento? De dias sem notícias do Coritiba? Sem jogos pra ver?
Parece que o atual Coxa abre uma nova categoria de torcedores, Nelson Rodrigues.
Sobre o autor
O Coritiba está na minha alma, muito mais até que no coração. Aprendi a gostar de futebol assim, de alma e também de coração. Sou do tempo do Belfort Duarte, hoje Couto Pereira. Isso foi no início dos anos 60. De lá nunca mais saí. Na década de 70, o Coritiba me conquista definitivamente, quando montou times inesquecíveis, várias vezes campeão. Período que passei a frequentar programas de rádio para tentar ficar o mais próximo que podia do futebol. Foi a época de Dirceu Graeser, no famoso"Viva o Futebol", na Rádio Clube, depois Rádio Cruzeiro. Foi o meu começo nos meios de comunicação. Vivo do jornalismo há mais de 30 anos, dedicados ao Rádio e principalmente televisão. Hoje sou muito mais da arquibancada. Sou mais torcedor e menos jornalista, principalmente quando o assunto é Coritiba.
Sobre o blog
Sou jornalista há mais de 30 anos. A profissão e a condição de torcedor, me fizeram aprender a policiar posições quando escrevo para tv ou rádio. Isso me desenvolveu muito o lado crítico. Costumo dizer que futebol é uma coisa e esporte é outra, bem diferente. Basicamente porque o futebol se transformou num produto da mídia e envolve muito dinheiro. O esporte amador, não. Sem dinheiro ele apenas sobrevive. É o caminho que o vôlei começou a tomar, por exemplo, mas ainda passa longe de ser o sucesso que é o futebol. Gosto de escrever sobre os dois: esporte e futebol. Jornalismo é minha profissão, o Coritiba minha paixão. Será um prazer estar aqui com vocês falando sobre tudo isso.
Ver comentários (18)
