Logo COXAnautas

Arquibancada
ArquibancadaSergio Brandão

Meia boca não servia

Em minha adolescência, quando queria ser jogador de futebol, o sonho era distante porque a disputa era com muita gente talentosa, bem melhor. Meia boca como eu tinha muitos. Nas peneiras dos clubes era preciso ser mesmo de médio pra cima. O meia boca era descartado.

Consegui vaga nos clubes menores. Na época: Pinheiros e Juventus. Nunca tive coragem de tentar no Atlético e Colorado.

Fiquei algum tempo jogando ali, inclusive contra os grandes, Coritiba e Atlético. Nos confrontos contra o Coritiba principalmente, a gente fazia malabarismo se preciso fosse. Era quase como hoje, quando o atleta se desdobra enfrentando os maiores. Era a grande chance de ser percebido e chamado, finalmente achando que o sonho seria possível. Como na época não havia tv, dvd, enfrentar os grandes em torneios, partidas amistosas, ou campeonatos, era a única grande oportunidade de chamar alguma atenção.

Chega o momento que as opções vão se encurtando, as cobranças em casa são maiores e os estudos e as necessidades nos levam por outros caminhos profissionais que acabam passando longe do futebol. Acaba restando se consolar com algum espaço que nos dão na arquibancada e lá a gente vai se acomodando e fica experimentando e aprimorando sentimentos diferentes que é se dar por satisfeito e se entender como um mortal torcedor.

Esta sensação de não fazer parte da festa que acontece lá dentro, no gramado, restando apenas o lado de cá, apenas aplaudindo e torcendo, é rapidamente assimilado, mas fica sempre o gosto ou pelo menos a sensação de que se fosse com a gente, lá dentro de campo, a coisa seria feita de outra forma. A gente ainda acha que sabe igual ou até melhor. E olha que com o futebol que estamos vendo por aí, se fosse mais novo, certamente teria espaço em muito time.

Mas acima disso tudo ficou sempre o respeito e o reconhecimento de que pelo menos grande parte daquela turma que estava lá dentro de campo, era mesmo especial, acima da média. Restava mesmo aplaudir e torcer. É quando a gente aprende a desenvolver muita coisa, inclusive a humildade. Também o amor por um cube de futebol. Se já tinha na família a herança de torcer pelo Coritiba, ter uma arquibancada para ocupar, acabou sendo determinante e foi forte.

Os tempos mudaram, o futebol é outro. Só a minha indignação com toda esta falta de qualidade no futebol jogado hoje que fica cada vez maior.

A geração nascida de 80 pra cá, não entende direito o que o pessoal com mais de 60, assim como eu, tenta dizer, às vezes até de forma persistente e chata. Argumenta que o futebol precisa ser feito da forma como é, porque ganhou em força, velocidade, mais tática, mais técnica, planejamento, nutrição, preparo físico administração... o futebol virou um grande negócio e hoje com auxílio da ciência.

Tudo bem, também acho isso tudo, não há como negar. Só que não precisava apagar ou se sobrepor ao talento e a alegria de jogar bola. Muitos dos que hoje vejo como profissionais em clubes grandes, não teriam vaga em nossos times de rua, de campinho de terra batida, por todos os bairros onde estive jogando bola.

Se na época o cara ruim ia pro gol, os jogadores de linha de hoje teriam ido mais cedo pra escola. Não ousariam experimentar pagar o mico de tentar sequer o gol no meu time do bairro.


Na verdade o futebol melhorou muito no marketing. Aprendeu a vender cabeça de bagre. Basta um corte de cabelo diferente, umas tatuagens, uma roupa chamativa, um carro moderno e está pronto o atleta de futebol. O resto deixa pra mídia que se encarrega de vender o resto. Para a mídia e seus prepotentes e endinheirados empresários.

Minha esperança é que estamos entrando em novo período de transformação. Ou o processo é irreversível e dele não vamos mais sair? Daqui pra frente só vai piorar?

Ainda gosto muito de futebol, conservo verdadeiro amor por este clube que escolhi e tudo isso é o que me mantém vivo na arquibancada, acreditando que as coisas ainda vão melhorar com ele, o futebol e principalmente com o Coritiba.

Mesmo sabendo das armadilhas do futebol, mas acreditando... sempre!

Sobre o autor

Sergio Brandão
O Coritiba está na minha alma, muito mais até que no coração. Aprendi a gostar de futebol assim, de alma e também de coração. Sou do tempo do Belfort Duarte, hoje Couto Pereira. Isso foi no início dos anos 60. De lá nunca mais saí. Na década de 70, o Coritiba me conquista definitivamente, quando montou times inesquecíveis, várias vezes campeão. Período que passei a frequentar programas de rádio para tentar ficar o mais próximo que podia do futebol. Foi a época de Dirceu Graeser, no famoso"Viva o Futebol", na Rádio Clube, depois Rádio Cruzeiro. Foi o meu começo nos meios de comunicação. Vivo do jornalismo há mais de 30 anos, dedicados ao Rádio e principalmente televisão. Hoje sou muito mais da arquibancada. Sou mais torcedor e menos jornalista, principalmente quando o assunto é Coritiba.

Sobre o blog

Sou jornalista há mais de 30 anos. A profissão e a condição de torcedor, me fizeram aprender a policiar posições quando escrevo para tv ou rádio. Isso me desenvolveu muito o lado crítico. Costumo dizer que futebol é uma coisa e esporte é outra, bem diferente. Basicamente porque o futebol se transformou num produto da mídia e envolve muito dinheiro. O esporte amador, não. Sem dinheiro ele apenas sobrevive. É o caminho que o vôlei começou a tomar, por exemplo, mas ainda passa longe de ser o sucesso que é o futebol. Gosto de escrever sobre os dois: esporte e futebol. Jornalismo é minha profissão, o Coritiba minha paixão. Será um prazer estar aqui com vocês falando sobre tudo isso.
Ver comentários (18)
Link copiado para a área de transferência