Clima de velório
No caminho, saindo do estádio até o carro, ouvi muitas conversas. Cinco delas falavam do capitulo de amanha da novela das 6, que na semana passada ganhou contornos diferentes na trama, outras três falavam do inglês Lewis Hamilton que na prova deste domingo já se sagrou antecipadamente tri-campeão mundial de formula 1. Alguns ainda contavam detalhes da balada de sábado à noite, mas nenhuma destas conversas falava de futebol, tão pouco do resultado do jogo. Dando a entender que não falaria em futebol nos próximos dias, meses, ou quem sabe anos.
Afinal, não há mesmo mais nada para ser dito, não há mais nada para ser feito do lado de cá, que caiba ao torcedor. Seu descrédito no time pode ser medido na presença nestes últimos jogos em casa. Quando ainda havia esperança, nestas partidas com promoção de ingresso, o público passava dos 30 mil torcedores. Hoje, não chegou a 18 mil pessoas.
Este é o torcedor Coxa hoje: desinteressado, irritado, chateado, magoado, e alguns já desistindo da arquibancada do Couto.
Em campo, o time parece aquele corredor amador de maratonas, que mal se preparou para a prova. Resolve encarar os 42 quilômetros e 125 metros de uma prova destas, mas no quilômetro 25 já não aguenta mais. Caminha durante alguns metros e mais adiante senta no meio fio, se lamentando de dores pelo corpo, com a perna não suportando mais nem a caminhada de poucos metros.
Por estes 10 meses, desta longa caminhada de decepções e frustrações, não resta mesmo mais nada a esperar deste time. Não há o que oferecer além disto que mostraram nestes meses de quase nada de futebol e de muita irritação.
Sei de muitos torcedores que já desistiram há algum tempo. Outros estão desistindo, e os mais teimosos, ainda seguirão até o fim, numa demonstração de amor e de doação ao clube, à instituição Coritiba. Atitude digna de respeito.
Quando chegar o ano que vem, teremos lá os fiéis 8, 10, ou com um pouco de boa vontade, uns 12 mil fiéis torcedores que numa noite fria de inverno, pagarão ingresso, para assistir Coritiba x Luverdense, ou qualquer outro adversário, e se as coisas não tomarem outro rumo agora, também vão reclamar, porque a inércia parece ser a palavra que rege esta administração.
Ainda hoje cedo, eu sentia cheiro de algo decisivo no ar. Alguma coisa me dizia que, ou aconteceria um grande milagre e veríamos o time jogando por música, coisa que ainda não tinha visto, ou teríamos um clima de velório, inesquecível. Mas acima de tudo não seria um dia de meio termo. E foi exatamente o que vi, clima de velório.
Como tenho feito há alguns jogos, saio um pouco antes do apito final. Faço uma caminhada de reflexão até o carro, buscando respostas. Hoje não. Hoje me senti mesmo em clima de velório. Aliás, saí de casa neste clima e cheguei no estádio assim.
Pouco antes do final do primeiro tempo, Fernando Gomes, na Transamérica, dizia que Lúcio Flávio precisava sair, ou que Ney Franco precisava arrumar o meio de campo que estava perdido. Dei risada. Aquilo foi sempre assim, Fernando! Não havia novidade naquele meio de campo perdido, não há novidade no que joga Lúcio Flávio, aliás desde que chegou. Não consigo lembrar de uma boa partida dele. E não só ele, mas todo o time virou presa do São Paulo. Pior, tirar Lucio Flávio e colocar quem? Devia ter deixado o cara até o fim para pagar castigo. Mas, Ney Franco esperou 10 minutos do segundo tempo para fazer a substituição. Piorou. Juan e Negueba incorporaram o clima de velório e nada puderam fazer.
Pra não dizer que foi o mesmo Coritiba dos últimos cinco jogos, hoje tivemos um fato novo: jogamos com um a menos, com a expulsão de Henrique que se tivesse um árbitro mais austero, o teria expulsado já no primeiro tempo.
A última esperança que tinha, foi morta lá dentro do estádio e velada no caminho até o carro. Posso até dar nomes aos assassinos desta minha esperança. Kléber, Henrique Almeida, Ney Franco, Lúcio Flávio, Rogério Bacellar, Serrano, Macias, Mazuco, Pedroso, Boulos, etc. etc. etc. etc.
Mataram minha esperança e estão colocando o Coritiba na segunda divisão, mais uma vez. E está lá, escancarado no site do clube, pra quem quiser ver: “SÓCIO COXA-BRANCA, 2016 ESTÁ EM SUAS MÃOS”.
Sobre o autor
O Coritiba está na minha alma, muito mais até que no coração. Aprendi a gostar de futebol assim, de alma e também de coração. Sou do tempo do Belfort Duarte, hoje Couto Pereira. Isso foi no início dos anos 60. De lá nunca mais saí. Na década de 70, o Coritiba me conquista definitivamente, quando montou times inesquecíveis, várias vezes campeão. Período que passei a frequentar programas de rádio para tentar ficar o mais próximo que podia do futebol. Foi a época de Dirceu Graeser, no famoso"Viva o Futebol", na Rádio Clube, depois Rádio Cruzeiro. Foi o meu começo nos meios de comunicação. Vivo do jornalismo há mais de 30 anos, dedicados ao Rádio e principalmente televisão. Hoje sou muito mais da arquibancada. Sou mais torcedor e menos jornalista, principalmente quando o assunto é Coritiba.
Sobre o blog
Sou jornalista há mais de 30 anos. A profissão e a condição de torcedor, me fizeram aprender a policiar posições quando escrevo para tv ou rádio. Isso me desenvolveu muito o lado crítico. Costumo dizer que futebol é uma coisa e esporte é outra, bem diferente. Basicamente porque o futebol se transformou num produto da mídia e envolve muito dinheiro. O esporte amador, não. Sem dinheiro ele apenas sobrevive. É o caminho que o vôlei começou a tomar, por exemplo, mas ainda passa longe de ser o sucesso que é o futebol. Gosto de escrever sobre os dois: esporte e futebol. Jornalismo é minha profissão, o Coritiba minha paixão. Será um prazer estar aqui com vocês falando sobre tudo isso.
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