Ah este Couto, o velho Coritiba !
Do grande portão à esquerda, havia uma portinhola por onde eles acessavam o estádio e já à esquerda, um outro portão de acesso ao vestiário. Só de dividir espaço com eles e se misturar com Jairo, Hermes, Oberdan, Cláudio Marques, Krueger, Zé Roberto, era sensação impagável. Não tinha dinheiro para o ingresso e ver o Coritiba era o que nos movia a esta "infração".
Aquilo acabou sendo feito por vários caminhos porque nem sempre a gente conseguia enganar o porteiro, se misturando com os jogadores. Fomos barrados algumas vezes. Até que um dia a nossa tentativa ficou manjada e não deu mais.
Antes da construção das arquibancadas da Amâncio Moro, havia uma árvore na esquina com a Mauá. Dali, bem do alto, era possível ver grande parte do campo, mas era arquibancada para uma ou duas pessoas. Dia de jogo grande, duas horas antes a árvore-arquibancada já estava ocupada.
Anos depois um grupo grande de torcedores descobriu o que nos colocou dentro do estádio por anos: a casa do padre, na Ubaldino do Amaral. Ali moravam os padres e seminaristas da Igreja Perpétuo Socorro. Na frente, a casa com um jardim bem grande e um quintal enorme para finalmente chegar ao muro do Couto.
A tarefa era um pouco mais árdua que a portinhola da Mauá e da árvore. Primeiro precisava passar pelo jardim da casa e sem fazer barulho alcançar a lateral que finalmente nos levava aos fundos, um quintal com um galinheiro bem populoso. As galinhas geralmente ajudavam não fazendo barulho (talvez porque se acostumaram com os silenciosos moleques, andando na ponta dos pés, sem incomodar as aves. É que a gente queria mesmo era só ver o Coxa jogar. O segundo obstáculo era a altura do muro. Primeiro vencer a escalada. Chegar no topo era uma tarefa inglória. Alguém sempre fazia escadinha e empurrava pra cima. O último sempre tinha uma tarefa mais complicada. A terceira tarefa era pular lá de cima ( devia ter uns 4 ou 5 mts de altura). O pulo tinha que ser no momento certo da passagem dos policiais que faziam ronda por ali.
Isso tudo vencido, a última etapa da façanha era correr até o fundo do estádio e se acomodar na arquibancada com cara de santo. Uma vez fui tão rápido que um policial me pegou no flagra do pulo, mas não me alcançou. Infelizmente o cara não entendeu a minha alma guerreira, foi atrás, me identificou entre os demais torcedores e educadamente me convidou a deixar o estádio pelo portão mais próximo que era o da Amâncio Moro.
Aquele Coritiba dos anos 70 não cabe mais neste formato de hoje, da SAF, das catracas de bilheteria com leitor ótico, sem muros, portões e portinholas de madeira, sem árvores. Um gigante de concreto armado, como dizia Lombardi. Onde só se aproxima do estádio quem passa por um filtro bastante rigoroso.
Este filme fez parte dos meus sonhos, sonhado com minha filha Helena, no sábado contra o América, nas quase duas horas de espera, sentado na arquibancada fria, molhada do Couto, antes da partida começar. Uma contagem regressiva feita antes da inesquecível vitória, comemorada até horas depois, quase como um título daqueles anos inesquecíveis.
Com uma bagagem desta, como não sair do Couto sem voz, mas feliz da vida
Sobre o autor
O Coritiba está na minha alma, muito mais até que no coração. Aprendi a gostar de futebol assim, de alma e também de coração. Sou do tempo do Belfort Duarte, hoje Couto Pereira. Isso foi no início dos anos 60. De lá nunca mais saí. Na década de 70, o Coritiba me conquista definitivamente, quando montou times inesquecíveis, várias vezes campeão. Período que passei a frequentar programas de rádio para tentar ficar o mais próximo que podia do futebol. Foi a época de Dirceu Graeser, no famoso"Viva o Futebol", na Rádio Clube, depois Rádio Cruzeiro. Foi o meu começo nos meios de comunicação. Vivo do jornalismo há mais de 30 anos, dedicados ao Rádio e principalmente televisão. Hoje sou muito mais da arquibancada. Sou mais torcedor e menos jornalista, principalmente quando o assunto é Coritiba.
Sobre o blog
Sou jornalista há mais de 30 anos. A profissão e a condição de torcedor, me fizeram aprender a policiar posições quando escrevo para tv ou rádio. Isso me desenvolveu muito o lado crítico. Costumo dizer que futebol é uma coisa e esporte é outra, bem diferente. Basicamente porque o futebol se transformou num produto da mídia e envolve muito dinheiro. O esporte amador, não. Sem dinheiro ele apenas sobrevive. É o caminho que o vôlei começou a tomar, por exemplo, mas ainda passa longe de ser o sucesso que é o futebol. Gosto de escrever sobre os dois: esporte e futebol. Jornalismo é minha profissão, o Coritiba minha paixão. Será um prazer estar aqui com vocês falando sobre tudo isso.
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