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Arquibancada
ArquibancadaSergio Brandão

Perdemos um ídolo, nasce uma torcedora...

Helena é mesmo pé quente. Do alto dos seus 5 anos, ainda não conhece derrota. Estas crianças parecem tão abençoadas quando as coisas não andam em campo – como no domingo, com o Bahia mais perto do terceiro gol do que nós do primeiro.

Ainda sem entender o que acontece no gramado, e no domingo contra o Bahia, nossa visão não era lá estas coisas, custou em acreditar que o Coxa perdia por 0X2. Os gols adversários iam saindo e eu avisando aquela pequena criatura, sentada ao meu lado, do desastre que se instalava no gramado com o nosso time do coração, justamente num dia de festa. Aquilo não podia estar acontecendo, imagino que era o que pensava aquela pequena torcedora, já quase veterana nas arquibancadas do Couto.

No segundo gol do Bahia, nem foi preciso dizer. As reclamações que vinham dos torcedores ao lado, era o sinal que as coisas pioravam. Seus olhos arregalaram e me perguntaram o que acontecia em campo. Confirmei balançando a cabeça, mordendo os lábios, fazendo ela também não creditar no que via.

Helena deixa escapar sua primeira reação. “E o Alex, pai”? - me perguntou ela.

– Como assim, filha, o que tem o Alex?

– Ele não pode fazer nada, pai?

- Não filha. Futebol não é assim!

Helena se vira olhando indignada para o campo, ainda tentando buscar uma resposta ou solução para aquela tragédia que ia se desenhando. Comecei a me preparar para mais, muito mais explicações.

Não foi preciso. Baixou a cabeça e começou a se entreter com um pirulito que trouxe de casa. De casa também veio um arsenal de comida. Um tupperware cheio de guloseimas, um estojo com lápis para desenho e folhas em branco que a mãe também tinha separado. Helena gosta de desenhar.

Pediu o equipamento, ainda sem mais nada para comentar sobre os 0 x 2. Na verdade nem olhava mais para o gramado. Parecia ter perdido o interesse pela tragédia. Eu com um olho no campo e outro ia entregando a ela o que me pedia.

Helena começa a desenhar e me mostra o primeiro desenho. O Coritiba estava no ataque e de onde estávamos, mal pude ver o cruzamento que achava Zé Love dentro da área, que de cabeça diminui. Nos abraçamos...

“ Gol do Coxa, filha” !!! – Comemorei levantando ela no colo para que também pudesse ver a festa. Ela olha para o campo, ainda com seu caderno na mão. A devolvo sentada onde estava. Ela insiste me mostrando mais uma vez o desenho. Agora, conseguindo prestar atenção, vejo algo parecido com um sol, ela me corrige dizendo que era uma flor.

-Eu fiz esta flor pro Coxa fazer um gol, pai!

- Olha que lindo, deu sorte, filha!

Helena parecia ainda concentrada em novos desenhos e vai me mostrando um a um, mas nada do segundo gol. Lá se foi o primeiro tempo que ainda nos dava a derrota de 1 x 2.

O jogo recomeça com Helena já cansada daquela aflição e de tanta festa que tinha começado lá fora, com a recepção a Alex. A minha camisa 10 relutava e ainda arruma tempo para comer uma bolachinha e uma pequena fatia de bolo, antes de dormir em meu colo. Já deitada, me olhando, bem séria faz um presságio. Ainda arrumo minha mochila que serve de travesseiro quando ela antes de fechar os olhos, me sorri e diz : “ Pai, o Coxa não vai perder”! Sorrio apenas agradecendo a preocupação, mas não acreditando que aquilo de fato pudesse acontecer.

Aquele anjinho parece ter convocado seus anjos superiores e protetores e os coloca em campo. Não demora fazemos o segundo. Nem pude comemorar direito com ela em meu colo. Mesmo com toda a gritaria, ela não acorda.

Nova festa com a substituição de Alex, mas Helena não vê. Dorme um sono pesado. O estádio emocionado... marmanjos chorando a despedida do ídolo e Helena dorme. Achei melhor que não visse mesmo o pai chorando. Acho que não entenderia.

Mais um menino revelado na casa completa a festa. Keirreson acorda Helena com seu gol, o nosso terceiro. Pela primeira vez em 5 anos, vejo Helena acordar sorrindo. Do chute de Keirreson só vi a bola entrando. O estádio explode junto com o sorriso de Helena, ainda deitada em meu colo. O sorriso era pra mim. Junto com ele me diz: - gol do Coxa, né pai??? - Sim filha, o terceiro do Coxa! - -Ganhamos Nena!

– Viu, eu disse que o Coxa não ia perder! Ainda ficamos para nos despedir de Alex.

Foi um ídolo, mas nasce uma torcedora.

Sobre o autor

Sergio Brandão
O Coritiba está na minha alma, muito mais até que no coração. Aprendi a gostar de futebol assim, de alma e também de coração. Sou do tempo do Belfort Duarte, hoje Couto Pereira. Isso foi no início dos anos 60. De lá nunca mais saí. Na década de 70, o Coritiba me conquista definitivamente, quando montou times inesquecíveis, várias vezes campeão. Período que passei a frequentar programas de rádio para tentar ficar o mais próximo que podia do futebol. Foi a época de Dirceu Graeser, no famoso"Viva o Futebol", na Rádio Clube, depois Rádio Cruzeiro. Foi o meu começo nos meios de comunicação. Vivo do jornalismo há mais de 30 anos, dedicados ao Rádio e principalmente televisão. Hoje sou muito mais da arquibancada. Sou mais torcedor e menos jornalista, principalmente quando o assunto é Coritiba.

Sobre o blog

Sou jornalista há mais de 30 anos. A profissão e a condição de torcedor, me fizeram aprender a policiar posições quando escrevo para tv ou rádio. Isso me desenvolveu muito o lado crítico. Costumo dizer que futebol é uma coisa e esporte é outra, bem diferente. Basicamente porque o futebol se transformou num produto da mídia e envolve muito dinheiro. O esporte amador, não. Sem dinheiro ele apenas sobrevive. É o caminho que o vôlei começou a tomar, por exemplo, mas ainda passa longe de ser o sucesso que é o futebol. Gosto de escrever sobre os dois: esporte e futebol. Jornalismo é minha profissão, o Coritiba minha paixão. Será um prazer estar aqui com vocês falando sobre tudo isso.
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