Perdemos para o isotônico
Nos arredores haviam outros times do mesmo bairro, de turmas diferentes, ou até de bairros diferentes, mas sempre vizinhos. Tinha gente das Mercês, Santa Felicidade, Vista Alegre, Pilarzinho etc.
Até hoje não sei direito quem fazia tudo aquilo acontecer, mas a gente se encontrava nestes espaços e rolavam enormes campeonatos, sempre muito bem organizados. Todos os times uniformizados, muitas vezes com arbitragem, tudo que pudesse se aproximar de uma disputa de verdade.
Alguns times eram caixa de pancada. A gente sabia que ganharia sempre. Para outros a derrota era certa e com uma grande maioria, a disputa era acirrada – o que colocava graça na brincadeira. Raramente saia pancadaria, embora a rivalidade fosse forte entre muitos.
Havia jogo imperdível, mesmo quando o nosso time ficava pelo meio do caminho. As coisas sempre andaram dentro da mais perfeita ordem.
Perder para um time inferior tecnicamente, era vergonhoso. Não era admissível. Acabava virando motivo de piada e a barra pesava por muito tempo. Havia cobrança dentro do grupo. Lembro de uma derrota que eliminou um menino das futuras escalações do nosso time. O sujeito foi convidado a se retirar e dar lugar a outros que a gente procurava nos times adversários. Havia convite formal para treinar com a gente. Uns aceitavam e outros não. A maioria não aceitava, afinal tinha o deslocamento que precisava ser feito de bicicleta, a pé ou até de ônibus, para chegar aos treinos com os novos colegas de time. Mas ser convidado para jogar em outro time, era motivo para inflar o ego.
Este tipo de história ficou na memória. O futebol não é mais assim, os times se encontram em outros espaços, os piás não frequentam mais campinhos, porque os campinhos não existem mais. O tom de brincadeira, sem a pretensão de virar profissional, também não existe mais. A molecada se encontra no máximo em escolinhas e os treinos são rígidos e alguns até limitam ações. Todos estão ali porque sonham ganhar muito dinheiro e fama com o futebol.
Uma coisa não consigo admitir e que também parece que mudou: a vergonha da derrota. Como disse, perder para time inferior era vergonhoso, fosse a situação que fosse.
Hoje, algumas diferenças colocam anos luz entre profissionais e amadores. Há uma divisão de categorias (series A, B, C, D), que qualifica atletas, diferenciando salários, com preparação técnica/tática/física, que fazem a grande diferença no futebol moderno.
Com um texto sofrível, cheio de erros, a nova diretoria – envergonhada- anuncia a primeira derrota do ano para um ilustre desconhecido ou menos importante, Red Bull. O anúncio foi feito em texto no site do Coritiba, e parecendo se envergonhar do que escreve, anuncia a derrota nas entrelinhas, não conseguindo ser claro. Trata a derrota como a questão menos importante, no caso. Diz o texto que valeu o teste e que Marquinhos achou válido o jogo.
Também acho, mas também acho que acima de tudo era uma partida de futebol entre Coritiba Foot Ball Club x Red Bull.
Jogo teste, amistoso, seja lá o nome que querem dar, não há como negar uma derrota, seja na circunstância que for. Começamos mal o ano, sim.
Se ainda não estão prontos fisicamente, se ainda não sabem de que forma o time será armado, que se faça primeiro isto, depois exponha a instituição Coritiba. Temos um nome e isso precisa ser preservado. Hoje a notícia nos jornais é a derrota do Coritiba para um tal de Red Bull.É verdade que a derrota para o Red, não é maior que o desastre na Copa do Brasil, onde fomos desclassificados pelo amador time do Nacional de Manaus, até hoje não explicada.
Não somos um time de rua que joga na Chacrinha, na quadra do Colégio Martinus ou no Cabralzinho.
Sobre o autor
O Coritiba está na minha alma, muito mais até que no coração. Aprendi a gostar de futebol assim, de alma e também de coração. Sou do tempo do Belfort Duarte, hoje Couto Pereira. Isso foi no início dos anos 60. De lá nunca mais saí. Na década de 70, o Coritiba me conquista definitivamente, quando montou times inesquecíveis, várias vezes campeão. Período que passei a frequentar programas de rádio para tentar ficar o mais próximo que podia do futebol. Foi a época de Dirceu Graeser, no famoso"Viva o Futebol", na Rádio Clube, depois Rádio Cruzeiro. Foi o meu começo nos meios de comunicação. Vivo do jornalismo há mais de 30 anos, dedicados ao Rádio e principalmente televisão. Hoje sou muito mais da arquibancada. Sou mais torcedor e menos jornalista, principalmente quando o assunto é Coritiba.
Sobre o blog
Sou jornalista há mais de 30 anos. A profissão e a condição de torcedor, me fizeram aprender a policiar posições quando escrevo para tv ou rádio. Isso me desenvolveu muito o lado crítico. Costumo dizer que futebol é uma coisa e esporte é outra, bem diferente. Basicamente porque o futebol se transformou num produto da mídia e envolve muito dinheiro. O esporte amador, não. Sem dinheiro ele apenas sobrevive. É o caminho que o vôlei começou a tomar, por exemplo, mas ainda passa longe de ser o sucesso que é o futebol. Gosto de escrever sobre os dois: esporte e futebol. Jornalismo é minha profissão, o Coritiba minha paixão. Será um prazer estar aqui com vocês falando sobre tudo isso.
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