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Arquibancada
ArquibancadaSergio Brandão

O menino Santiago

O menino Santiago
Ultimamente a periferia do futebol anda mais interessante que ele próprio. Proporciona imagens como esta, que ganhou as páginas do El Pais, na Argentina. Santiago, o menino amputado, que empresta a muleta para um amigo, para assistir por cima do muro, um jogo do Racing, faz a gente pensar um monte de coisas. Segundo a mãe de Santiago, seu sonho é conseguir uma prótese.

A imagem deve ter rodado o mundo já faz quase um mês, suponho. Cheguei a publicar no meu perfil do Fecebook. Agorinha mesmo estava novamente dando mais uma olhada nela e achei que devia dividir com vocês. Só porque acho que é este espírito que faz falta ao futebol. Sozinha esta foto carrega uma porção de informações, uma porção de ensinamentos. Chega a emocionar, mas principalmente, carrega uma informação que parece ser desprezada por quem está lá dentro, por quem vive do do futebol.

Aqui no Coritiba mesmo, temos e já tivemos outros grandes exemplos, muito parecidos com este. Estas coisas nos emocionam quando publicadas, mas no memento seguinte cai no esquecimento e seguimos fazendo as mesmas coisas, da mesma forma, repetindo os erros de antes. Então, parece necessário de vez em quando republicar e tentar ampliar o público atingido com estes fatos. De tempos em tempos, parece que precisamos de uma paulada destas para acordar.

Santiagos brasileiros, argentinos, paraguaios estão aos montes por aí. Dirigentes e atletas até os conhecem ou pelo menos já ouviram falar, mas precisam se desconectar deste mundo. O futebol de hoje não permite mais espaço, com muito tempo de dedicação para estas coisas. Ou se desconectam propositalmente ou não fazem mesmo questão de entrar neste mundo.

Na verdade alguns fazem o caminho contrário. Se fecham em conversas bem distantes destas necessidades da Santigo. Porque neste futebol dos milhões de euros e dólares, muitos atletas, como Fred, por exemplo, trocam o Fluminense pelo Atlético Mineiro, que entre outros benefícios da troca de clube, levam junto luvas, prêmios, rescisões e ainda um salário mensal de 800 mil reais. Valores que resolveriam a vida de muita gente, ou no mínimo compraria muitas destas próteses que Santiago precisa.

O problema não é de Fred e de nenhum atleta, que escolheu e se dedicou em treinamento a vida toda, na troca honesta do dinheiro pelo trabalho. Os culpados são todos que levaram o futebol a estes valores. Onde falta para Santigo e sobra e deixa completamente fora da realidade, a grande maioria, que vive nas arquibancadas ou como Santigo, pendurado em muros para ver o seu time do coração.

Valores que para muitos de nós não é possível nem imaginar. Para quem como você, que faz das tripas coração, só para assistir uma partida do seu clube. Gente que como Santigo precisa subir numa muleta e ainda divide a outra perna com um amigo e ainda acham diversão nisso. Um mundo escondido por trás de muros que raramente gente como ele consegue ver. Chega a ser um mundo quase irreal.

Nada contra o salário de Fred e de oytros tantos milionários que o futebol criou por aí. É que ainda consigo me indignar com estas necessidades que destoam da vida de todos nós e que só não vê quem não quer. Só traço o paralelo porque o caso de Fred é recente e foi o primeiro que me ocorreu quando olhava novamente a foto que mostra Santigo pendurado em sua muleta, acompanhado pelo amigo, só para assistir uma partida do Racing.

Confesso, me sinto um pouco envergonhado por poder sentar numa arquibancada em condições melhores que o menino argentino, isso me perturba.

Eu sei, isso não é nada diante das necessidades de Santiago, mas não dá pra ver isso, conhecer a história do futebol, conhecer seus subterrâneos, sua política, seus requintes, suas vaidades, suas mazelas, seus interesses, (muitos escusos) e ficar quieto.

Sobre o autor

Sergio Brandão
O Coritiba está na minha alma, muito mais até que no coração. Aprendi a gostar de futebol assim, de alma e também de coração. Sou do tempo do Belfort Duarte, hoje Couto Pereira. Isso foi no início dos anos 60. De lá nunca mais saí. Na década de 70, o Coritiba me conquista definitivamente, quando montou times inesquecíveis, várias vezes campeão. Período que passei a frequentar programas de rádio para tentar ficar o mais próximo que podia do futebol. Foi a época de Dirceu Graeser, no famoso"Viva o Futebol", na Rádio Clube, depois Rádio Cruzeiro. Foi o meu começo nos meios de comunicação. Vivo do jornalismo há mais de 30 anos, dedicados ao Rádio e principalmente televisão. Hoje sou muito mais da arquibancada. Sou mais torcedor e menos jornalista, principalmente quando o assunto é Coritiba.

Sobre o blog

Sou jornalista há mais de 30 anos. A profissão e a condição de torcedor, me fizeram aprender a policiar posições quando escrevo para tv ou rádio. Isso me desenvolveu muito o lado crítico. Costumo dizer que futebol é uma coisa e esporte é outra, bem diferente. Basicamente porque o futebol se transformou num produto da mídia e envolve muito dinheiro. O esporte amador, não. Sem dinheiro ele apenas sobrevive. É o caminho que o vôlei começou a tomar, por exemplo, mas ainda passa longe de ser o sucesso que é o futebol. Gosto de escrever sobre os dois: esporte e futebol. Jornalismo é minha profissão, o Coritiba minha paixão. Será um prazer estar aqui com vocês falando sobre tudo isso.
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