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Arquibancada
ArquibancadaSergio Brandão

A era dos Centros de Treinamento.

Antes que me crucifiquem, dizendo que não há como fugir disso, que futebol moderno precisa ser assim, devo lembrar que o texto abaixo é apenas uma conjectura. São minhas conjecturas e sem fundamento em estudo ou pesquisa.

Teve tempo que os clubes treinavam nos seus estádios. Quando queriam se esconder, arrumavam um campo alugado em um canto qualquer. No Coritiba, os treinos sempre foram no Couto Pereira. Uma forma bem rudimentar, amadora, mas que tinha suas vantagens. A torcida podia assistir os treinos, a imprensa tinha como avaliar todos os recém chegados e informar sobre o rendimento de cada um. Isso acabou. Vivem por trás de muros, portões fechados, treinos secretos. Bom por um lado, mas ruim por outro. Blindou o departamento de futebol e dele pouco sabemos e por consequência podemos cobrar.

O ano que o Paraná Clube caiu, eu como repórter, produzia para o “Cartão Verde”, programa esportivo da Tv Cultura, um material, sobre o jogo que decidia a vida do clube na série A. Acho que foi contra o Vasco, em São Januário. No meio da matéria, coloquei uma entrevista com Manoel Fernandes, tricolor conhecido e radialista que na época era setorista do time da Vila. Naquela oportunidade, Maneco me disse que se o Paraná caísse, jamais subiria, justificando o que acabava de me afirmar que a falta de um CT ao clube seria uma das principais causas. Na época time que se pretendia sério, já tinha que ter um Centro de Treinamento. Poucos tinham, mas Coritiba e Atlético foram os primeiros aqui no Estado. Maneco ainda deu como exemplo os dois coirmãos da Capital, que já tinham experimentado a segunda divisão, mas voltaram.

De fato o Paraná caiu e não subiu mais, mas como reconheço as vantagens e até necessidades de um CT, também vejo muitas desvantagens, claro.

Além de preservar o time, de dar um tratamento profissional, coisa que exige hoje o futebol moderno, o CT, concentra num mesmo espaço todas as necessidades de um clube de futebol profissional. Desde alojamento, equipamentos para treinamento, como o isolamento de possíveis inconvenientes até segurança. Além de preservar o gramado do estádio onde o clube joga suas partidas oficiais.

Mas os CTs também enclausuraram comissões técnicas em redomas, sem que sejam importunados e cobrados pelos seus trabalhos, às vezes me dando a impressão de transformar este espaço num mundo quase irreal. Onde existe só a verdade interna. A falta de contato com o mundo externo parece emburrecer seus habitantes.

Quantas aulas matei, quantas vezes estive com amigos nas tardes ensolaradas de inverno ou de verão, acompanhando treinos do Coritiba no Couto, na época ainda Belfort Duarte. Muitas vezes ao lado de chatos, é verdade, que por conta da falta de um público maior, conseguiam ser ouvidos lá da arquibancada dentro de campo, importunando o trabalho no gramado. Mas eram logo convidados a se retirar ou ignorados quando inofensivos.

O futebol ganhou ares arrogantes, colocando imprensa e torcida, em lugares mais confortáveis, mas distantes. Filtrando informação, deixando escapar só o que convém, além de indiretamente selecionar torcedores. Me daria por satisfeito se este mesmo cuidado fosse dado da mesma forma a qualidade do futebol que andam nos dando desde a era dos CTs.

Hoje, por conta desta blindagem, os atletas recém chegados, só são conhecidos por fotos ou vistos no dia que finalmente entram em campo para jogar. Acabou a tietagem de autógrafos no final dos treinos, com a saída dos atletas que eram esperados por grupos enormes de garotos no portão da Mauá.

O Couto ainda é a casa do Coritiba. Hoje, o CT da Graciosa parece a casa da amante. Onde o time passa a semana e só volta pra família no sábado ou domingo. Faz um meio de campo e logo some de novo.

Os Cts foram sendo criados a partir de modelos europeus, e incorporados ao futebol brasileiro, sem que fosse medida sua adaptação à realidade brasileira, sem levar em conta a cultura do nosso futebol. Afetivo e intenso na relação com seu clube, o mais prejudicado foi o torcedor, que sempre gostou do contato. O apaixonado foi obrigado a ficar distante e aprender uma relação diferente com seu clube do coração, a partir da era do CTs.

Sobre o autor

Sergio Brandão
O Coritiba está na minha alma, muito mais até que no coração. Aprendi a gostar de futebol assim, de alma e também de coração. Sou do tempo do Belfort Duarte, hoje Couto Pereira. Isso foi no início dos anos 60. De lá nunca mais saí. Na década de 70, o Coritiba me conquista definitivamente, quando montou times inesquecíveis, várias vezes campeão. Período que passei a frequentar programas de rádio para tentar ficar o mais próximo que podia do futebol. Foi a época de Dirceu Graeser, no famoso"Viva o Futebol", na Rádio Clube, depois Rádio Cruzeiro. Foi o meu começo nos meios de comunicação. Vivo do jornalismo há mais de 30 anos, dedicados ao Rádio e principalmente televisão. Hoje sou muito mais da arquibancada. Sou mais torcedor e menos jornalista, principalmente quando o assunto é Coritiba.

Sobre o blog

Sou jornalista há mais de 30 anos. A profissão e a condição de torcedor, me fizeram aprender a policiar posições quando escrevo para tv ou rádio. Isso me desenvolveu muito o lado crítico. Costumo dizer que futebol é uma coisa e esporte é outra, bem diferente. Basicamente porque o futebol se transformou num produto da mídia e envolve muito dinheiro. O esporte amador, não. Sem dinheiro ele apenas sobrevive. É o caminho que o vôlei começou a tomar, por exemplo, mas ainda passa longe de ser o sucesso que é o futebol. Gosto de escrever sobre os dois: esporte e futebol. Jornalismo é minha profissão, o Coritiba minha paixão. Será um prazer estar aqui com vocês falando sobre tudo isso.
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