01/09/2010 13h14 - Gibran Mendes - Comente esse post

Cerca de 20 dias separam o inverno da primavera. O clima já começou a esquentar e o frio vai aos poucos sendo reduzido e dando seus últimos suspiros.
Mas nem bem é primavera e já vejo algumas flores desabrochando. Os ipês amarelos já dão as caras formando belos corredores coloridos nas ruas de Curitiba. Os passarinhos fazem sua parte e tocam a valsa a espera do dia 23 de setembro, quando se inicia a primavera austral, a primavera do Hemisfério Sul.

Esta manhã enquanto vinha para o trabalho um destes passarinhos, um verde, me revelou um segredo. Há uma grande mobilização na cidade para adiantar a primavera em Curitiba.
Fiquei desconfiado, confesso. Que interesse teria um passarinho, verde, me contando uma notícia destas? Seria eu um privilegiado?
Segui meu rumo e passei a prestar atenção nas ruas, nas árvores, nos passarinhos e nas pessoas. Percebi então que o passarinho não tinha me contado nenhum segredo. A informação já era pública.
Pessoas nos elevadores, nos carros, nas ruas e nos ônibus. Até em bicicletas eu vi. Elas assobiavam, tal e qual aquele passarinho, músicas que me pareciam conhecidas.
Era uma conjunção de grandes e pequenos pássaros, humanos adultos ou não, todos assoviando de maneira não uniforme, músicas em comum. Poisé, pensei comigo, a primavera definitivamente começará mais cedo em Curitiba. Cinco dias antes na verdade.
Os passarinhos verdes assobiam por toda Curitiba as músicas do Coritiba e se prepararam para o dia 18 de setembro, dia da volta ao Couto Pereira. Dia da primavera precoce na capital paranaense e do desabrochar de novos sonhos e um horizonte diferente do triste inverno que já perdura desde o dia 6 de dezembro de 2009.

A hora está chegando. Primavera verde com Green Hell. No dia 18 de setembro.
Em tempo:
Todos estes que aí estão
Atravancando o meu caminho,
Eles passarão.
Eu passarinho!
Mário Quintana
Ps: O passarinho desta semana foi inspirado em um e-mail da fiel Coxa-Branca Aruanda Sfair, na lista Chat Coxa
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27/08/2010 12h31 - Gibran Mendes - Comente esse post

Paulo e Grasiela eram casal normal, harmonioso. Convergiam nos pensamentos em muita coisa. Um dos poucos motivos de atritos do casal era a organização da casa. Paulo era neurótico. Gostava de tudo muito bem colocado. Na estante, os livros, cds e dvds ficavam separados por ordem alfabética. Um eventual amigo perguntava: “Paulo, você tem algum dvd do Toquinho?”. Sem pestanejar ele respondia de pronto: “Na estante, terceiro andar o quarto disco da esquerda para a direita”. Este era Paulo, mas que contudo, não gostava de organizar e reorganizar suas coisas.
Já Grasiela, embora gostasse da organização, não era muito fã da prática propriamente dita. Deixava as coisas ali, largadas, não se empenhando muito nos afazeres sistemáticos que Paulo tanto prezava.

Certo dia, Paulo chegou em casa do trabalho. A sala estava revirada. Dvds espalhados e desorganizados, os cds empilhados de forma desordenada e os livros todos bagunçados. Ficou extremamente irritado. Mas resolveu ficar calado para ver por quanto tempo Grasiela agüentaria aquela bagunça.
Ela, tampouco tocou no assunto. Ambos conversavam, passavam pela sala com as pernas arqueadas desviando a bagunça que tomava conta até do chão. Mas o assunto não entrava em pauta. Assim foi durante quatro dias.
Em um determinado momento, Grasiela já revoltada com a situação, foi cobrar de Paulo uma explicação: “Escuta, você que fala tanto em organização não vai arrumar esta bagunça?”.
A resposta de Paulo veio na lata: “Você só pode estar maluca. Não falei nada porque gostaria de ver quanto tempo você demoraria para arrumar esta bagunça”.

Ambos se olharam com expressão curiosa e miraram, sem combinar, em direção a pilha de jornais que estava no meio da sala. A manchete era: “Polícia segue em busca do homem aranha”.
O homem aranha, em Curitiba, foi um assaltante pé de chinelo que ganhou notoriedade pela audácia que cometia seus crimes. Apartamentos com janelas abertas e com cabos de televisão eram as vítimas do meliante. Ele subia, levava o pouco que conseguia colocar em suas costas de forma que fosse possível descer, mas não sem antes fazer um rango na geladeira das vítimas.
Paulo e Grasiela então correram automaticamente para área de serviço do apartamento, viram a janela aberta e algumas coisas como um rádio de pilha caído. Ao abrirem a geladeira notaram a falta de alguns alimentos, bem como de alguns dvds e cds de sua coleção.
A situação foi tão constrangedora e ao mesmo tempo inusitada que não sobrou tempo para lamentações. O assalto à casa deles transformou-se em uma grande piada. A ausência de comunicação entre o casal fez com que eles demorassem quatro dias para descobrirem o furto.

Mas e daí? Daí gostaria de saber a quantas anda a comunicação entre jogadores, departamento de futebol e direção do Coritiba.
Está tudo bem? Há algum problema financeiro que esteja atrapalhando o time dentro de campo? Jogadores novos chegando com bons salários e que sequer estão atuando?
Precisará de um jornal atirado no meio da sala para descobrirem o problema? Melhor que não. Por isso é melhor sentar, conversar e colocar a casa em ordem.
Ainda mais que no caso do Coxa não haverá senso de humor capaz de fazer rir nem os mais otimistas e pacatos torcedores.
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17/08/2010 20h17 - Gibran Mendes - Comente esse post

O mundo do futebol é tribal. As músicas, baterias, bandeiras, os rituais e as cores. Tudo faz parte deste processo. Estudos antropológicos apontam e comprovam esta teoria. Talvez explique, muito embora não justifique, a violência no esporte, que não é exclusividade do Brasil. A América Latina, Europa, os Bálcãs, enfim, onde há futebol de certa forma há violência, infelizmente.
Contudo, o outro lado, é a festa. A magia que o esporte leva para a vida das pessoas que passam a amar um clube como alguém de sua família, uma esposa, um pai, uma mãe ou um filho. Não importa o que há de errado, este amor perdurará. Há como explicar? Não... Nem a violência.
Digo isso, pois gostaria de saber até onde vão as cores. Representação mais fácil de times de futebol, elas definem estilos de vida, mas jamais podem afastar pessoas ou pior, torna-las inimigas.
Tenho um bom exemplo. De um lado o vermelho. Rubro da cor da bandeira do A. Paranaense e de Portugal. Do outro lado, o verde. A cor da bandeira do Coritiba e do Brasil. Duas cores, tal e qual a bandeira dos lusos. Esta, talvez, a única divisão que me separa de uma grande figura. Aliás, segundo a última e ótima notícia, recupera-se muito bem após passar por apuros em sua saúde.

Carlos Manuel Vasconcelos Athaíde dos Santos. Como o próprio nome denuncia, português de nascença: brasileiro por adoção. Brincadeiras, trocas de provocações e rivalidade sadia se tornaram rotina. Clássico na cidade com derrota do Atlético? Ele levava as gozações numa boa. Derrota do Coxa? Era a vez do Gibran ouvir as sempre inteligentes tiradas, muito embora esta situação não ocorra a quase três anos.
Nascido em Ilha Terceira, nos Açores, Carlos entre idas e vindas chegou ao nosso País pela primeira vez com dois anos de idade. Ele é uma de minhas referências, colega de trabalho e durante os anos de convivência passou disso: além de meu amigo, transformou-se numa fonte de inspiração.
Caráter, coragem, hombridade, capacidade e inteligência. Tudo isso não tem cor. Até mesmo porque as cores dos filhos de Carlos Manuel são as mesmas que as minhas. A prole é Alviverde, enquanto ele segue rubro-negro.
Se o branco é a soma de todas as cores, como afirmam os cientistas, então este é o limite: a união de todas. Futebol é alegria e vida, nunca o contrário. Vida que continua e que segue cada vez mais forte para o Carlos Manuel, que apesar de rubro-negro, sempre defendeu o Alvi da bandeira da paz em qualquer situação.
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12/08/2010 18h13 - Gibran Mendes - Comente esse post

Marcos Aurélio, atacante do Coritiba. Nelson Rosa, funcionário público. São os dois homens de tiro longo que conheço no Paraná.
O atacante Coxa tem assumido, cada vez mais, a missão de bater as faltas para o Coritiba. Confesso: me causava indignação ver um time que durante anos ficou sem ter um grande batedor de faltas. A infração, próxima da área, deve obrigatoriamente levar medo ao adversário. Deixar a jogada correr ou arriscar uma falta na entrada da área? Esta deve ser a dúvida do zagueiro ao ver o avante adversário entrando em boas condições de gol. Não era o que ocorria no Coritiba.
Em 2007, com Anderson Lima, o Coritiba ainda levava certo perigo nestas jogadas. Em 2008 o Coxa marcou apenas quatro gols de falta e no ano passado apenas dois, um de Renatinho e outro de Marcelinho Paraíba.

Mesmo quando tivemos jogadores tidos como bons cobradores de faltas, no Coritiba, por um motivo ou outro, não demonstravam a mesma pontaria certeira que em outros clubes. Até que Marcos Aurélio resolveu iniciar a mudança deste paradigma.
Contra o A. Paranaense, no estadual deste ano, empatou o clássico em uma linda cobrança de falta na Baixada. O goleiro adversário nada pode fazer a não ser ver o gol novamente no replay para ter a certeza de que sua presença naquele lance era meramente figurativa. Os artistas principais eram a bola e Marcos Aurélio.
Vieram também dois gols de falta contra o Iraty no estadual. Marquinhos, voltando de contusão, marcou outro golaço de falta contra o Vila Nova. Um tirambaço, de longe, o famoso tiro longo. Na partida contra o São Caetano, um novo golaço.
Na minha conta já são cinco, mais do que no ano passado inteiro. Que Marcos Aurélio continue assim, fazendo gols de falta e obrigando os zagueiros adversários a pensar duas vezes antes fazer uma infração.
Enquanto isso, uma das figuras mais antigas do mundo, o Nelson Rosa, também revelou-se um homem de tiro longo. Reza a lenda que Nelson foi o primeiro marujo a embarcar na Arca de Noé e o responsável pela extinção do Quizurumbim, espécie de mamífero que deixou de levar até a arca. Teria sido também o escriba que esculpiu as tábuas dos 10 mandamentos e muito mais que isso: quando Deus disse: “Faça-se a Luz”, há quem diga que Nelson foi o primeiro engenheiro elétrico do mundo a fazer todas as ligações necessárias.
Pois bem, Nelson revelou-se o homem de tiro longo de uma forma diferente de Marcos Aurélio. Ao contar parte de sua infância, em Abatiá, no Norte Pioneiro do Estado, lembrou de passagens curiosas como a chegada do sabão em pó, do fogão a gás e da panela de pressão. Relembrou também como seu usava o banheiro naquela época, quando uma casinha era colocada do lado de fora da residência e sem saneamento básico, um buraco era responsável pelo acolhimento dos dejetos humanos. “Quando íamos até o banheiro, mandávamos um ‘tiro longo’”, resumiu.
Vida longa ao bi-centenário Nelson Rosa e ao torpedo Marcos Aurélio. Os dois homens de tiro longo do Paraná.
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05/08/2010 10h21 - Gibran Mendes - Comente esse post

Para muitos o trágico dia seis de dezembro de 2009 representava o início do fim do Coritiba Foot Ball Club. O pessimismo tomava conta das fileiras Alviverdes. Um rebaixamento merecido dentro de campo. Cenas de violência não merecidas dentro e fora do gramado. A situação financeira do clube, como já se desconfiava, era terrível. Em dois anos o Coritiba retornou para a primeira divisão com as contas relativamente organizadas e caiu no inferno da Série B quebrado. De lambuja 10 jogos fora do Couto Pereira na Série B fora as partidas do Campeonato Paranaense.
Um cenário suficiente para muitos acreditarem que até levantar, sacodir a poeira e dar volta por cima, o Coritiba levaria muito tempo. O discurso, antes do início da Série B, era que de o time precisaria se manter em pelo menos oitavo ou sétimo colocado na tabela para quando retornasse ao Couto Pereira dar o sprint final para retornar ao seu lugar. Mas não é o que está acontecendo.
Venceu, de forma incontestável, o Campeonato Paranaense com uma vitória sobre o A. Paranaense mo Couto Pereira. Surpreendendo muita gente, inclusive a sua própria torcida, o Coritiba é líder da Série B com méritos. Perdeu apenas o primeiro jogo e desde então acumula resultados positivos, alternando dentro das próprias partidas, bons e maus momentos. Fato é que o Coxa ruma para uma campanha histórica caso siga este trajeto até o final do ano. Contra tudo e contra todos.
O jogo deste sábado, na Vila Capanema, o Beira Rio das Araucárias, será o primeiro do Cori em Curitiba na Série B deste ano. Depois de uma vistosa vitória sobre o Náutico, o P. Clube tentará manter o embalo para se firmar no G4. Já o Coritiba, por sua vez, continua com a obrigação de ganhar. Jogar longe de casa já não é desculpa para mal resultado para o Alviverde. Aliás, neste o campeonato, o Coritiba nunca jogou tão perto de casa quanto neste sábado. Os ingressos já estão a venda. Espera-se uma bela partida e uma linda festa de ambas as torcidas. Tão longe, mas tão perto de casa.
9.5
Não há como criticar a iniciativa do clube de inserir os sócios na criação e escolha da terceira camisa do Coritiba para esta temporada. Bola dentro, sem dúvida. Mas confesso que fiquei entristecido com um e-mail que recebi de meu amigo Ronaldo Anzanello, grande Coxa-Branca e cônsul do Alviverde em Madrid. Sócio a distância do Verdão ele não poderá participar do processo de escolha da nova camisa Coxa.
Os motivos, segundo consta, são variados. Desde incentivo aos sócios irem até o belo Espaço 100 anos para votarem, até fraudes de “torcedores” que forjavam endereços fora de Curitiba para terem um plano de sócio mais barato. De qualquer forma acredito que sócio é sócio e estes que mesmo separados por municípios, estados, países e até continentes, deveriam poder participar deste processo de alguma forma.
Pato Branco é Coxa
Recebi por e-mail o contato de meu amigo Matheus Bet, pato-branquense e Coxa-Branca. Conversamos sobre as coisas do Coxa e também sobre a minha cidade natal e percebi que o número de torcedores Alviverdes, naquela terra dominada pela colonização gaúcha está aumentando. Pedi então que ele escrevesse um relato sobre esta situação que, espero, siga nesta toada e se reflita, inclusive, em outras regiões do Estado. Com a palavra: Matheus:
Que relação poderia ter o Coritiba Foot Ball Club com uma cidade a mais de 450km do Couto Pereira?
Eu não sei, acho que ninguém sabe exatamente o que está acontecendo, mas é um fato. Cinco anos atrás era praticamente impossível encontrar alguém em Pato Branco com uma camisa do Coxa ou qualquer material que fizesse referencia ao Coritiba, mas algum fenômeno está acontecendo.
Hoje enquanto caminho pelas ruas desta cidade no sudoeste do Paraná vejo bandeiras, camisas, adesivos em carros e sem mentira já vi até pato-branquense com o símbolo do Coritiba tatuado, estamos mostrando para a maioria gremista e colorada que aqui é terra de paranaense.
Como não sei explicar exatamente o que está acontecendo, eu acredito em dois fatores para isto:
1º) Como disse meu novo amigo Gibran Mendes, que disponibilizou o espaço no blog para que eu pudesse escrever, o grande numero de pato-branquenses indo para Curitiba estudar e trabalhar está contribuindo para o aumento da torcida Coxa Branca na cidade, muitos vão estudar por alguns anos na capital e aprender a amar o Coritiba ou algum outro clube local e trazem esse amor para a terrinha.
2º) Empresas pato-branquenses patrocinando o Coritiba, ano passado tivemos uma empresa daqui que teve a honra de colocar o seu nome na camisa verde e branca e neste ano estava também presente na camisa no amistoso contra o Botafogo, neste mesmo jogo outra empresa de Pato Branco colocou seu nome nas placas ao redor do campo.
Creio que estes fatores estão contribuindo muito para o crescimento da torcida alviverde na cidade. Também existe um crescimento da torcida do clube rival, que aqui não é tão rival assim, pois para que possamos crescer, primeiro precisamos nos unir, vejo bastante coxas brancas e atleticanos assistindo jogos e até atletibas juntos dividindo uma cerveja (comigo já aconteceu varias vezes), aqui dificilmente acontece aquele olhar frio quando 2 pessoas se cruzam na rua com as camisas adversárias, mas sim um sorriso e um comprimento, porque antes de estarem torcendo pelo clube, estão torcendo para o nosso Estado como um todo. A rivalidade fica apenas nas brincadeiras, espero que continue sempre assim.
Afinal porque torcer para os outros estados se podemos torcer para nós mesmos? Não é muito melhor?
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16/07/2010 13h20 - Gibran Mendes - Comente esse post

A bola só rolará para a Copa do Mundo de 2014 no Brasil daqui quatro anos. Mas o clima do mundial mais famoso dos esportes já está no ar de todas as cidades apontadas como sede pela CBF e pela FIFA. As páginas esportivas dividem atenção com a editoria política, muitas vezes se misturando, tornando a viabilização da Copa do Mundo em Curitiba uma das pautas desta eleição.
Tudo bem, tudo normal, se não fosse um pequeno detalhe. A viabilidade financeira da Arena da Baixada depende de investimento público. A humilde opinião, mesmo que as vezes distorcida, deste escriba é simples e clara. Contra o investimento público em qualquer estádio no Brasil. Não apenas no Paraná, não apenas em Curitiba, não apenas no do A. Paranaense. Se há um esporte que não necessita de dinheiro público, é o futebol. Os atletas olímpicos que o digam.
Mas seria tolice qualquer pessoa dizer o contrário de que por merecimento, quem deveria sediar a Copa do Mundo em Curitiba, não é a Arena da Baixada. O time capitaneado pelo então presidente do A. Paranaense, Mário Celso Petraglia, pensou nisso muito antes do que qualquer clube. Contra os méritos, não há sofisma que possa ser colocado.
Mas diante dos direitos, sempre vêm os deveres. Coisa simples: aprendemos ainda antes de entrar na escola. O que não se pode é imputar o direito para um ente e o dever para toda a sociedade, inclusive os que não gostam de futebol. Isso vale para a Arena da Baixada, uma possível Arena ParaTiba, Arena do Operário, Arena do Triste ou Arena do Corinthians. Os fatos não mudam e não podem mudar de acordo com o sujeito da frase.

Diante disso tudo um dos aspectos mais preocupantes é que a rivalidade burra, como gostam de dizer, pode acabar se tornando um catalisador de violência nos estádios. Como? Simples. Hoje, procura-se fazer uma divisão, inclusive de certos homens públicos, de quem está a favor do Paraná com a Copa do Mundo em Curitiba e quem está contra, seja por inveja, como gostam tanto de pregar, ou simplesmente por uma questão de princípio, como faço questão de esclarecer.
Não respeitar a opinião alheia, forçar situações em que a rivalidade que deveria ser sadia se torna uma disputa de interesses, inclusive econômicos, além de vender uma ilusão de que Copa do Mundo de 2014 é a salvação para os problemas econômicos, sociais e inclusive esportivos que o Estado enfrenta, além de ser ridículo é perigoso.
Percebo que a discussão, cada vez mais acalorada, já atingiu a violência verbal e que dentro de pouco tempo poderá se transformar em violência física que será facilmente percebida em clássicos estaduais ou até mesmo em eventuais e esporádicos encontros de torcida pelos bairros e no centro da capital.

Parar de dividir a população, ou os torcedores, entre grupos a favor do Paraná e contra o Estado, ou ainda dos “progressistas” e dos “invejosos” e até mesmo dos “aproveitadores” e dos “probos” torna-se uma obrigação individual de torcedores de todos os times. Caso contrário podemos voltar a presenciar cenas de violência, como em um passado recente, e aí de nada adiantará chorar o leite derramado.
É preciso que fique clara a responsabilidade individual de cada formador de opinião, do Juca Kfouri, colunista da Folha de São Paulo ao blogueiro independente. Depois não adiantará escrever textos pedindo paz e criticando a violência nos estádios, quando mesmo que indiretamente, se incita a violência tornando rivais esportivos em inimigos figadais.
Foi ao ar uma entrevista feita com este modesto escriba no excelente blog Meu Time de Botão, do Ricardo Drago. Para quem quiser conferir, basta clicar aqui.
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22/06/2010 13h03 - Gibran Mendes - Comente esse post

Começou a última rodada da primeira fase da Copa do Mundo. Os dois principais personagens desta Copa até o momento têm semelhanças e diferenças históricas e recentes. Podem também se resumir em órgãos, que segundo estudos recentes e também na própria cultura popular, representam emoções.
De um lado um verdadeiro camisa 10. Fora de série, Maradona foi o maior jogador de futebol de todos os tempos. Inegavelmente El Pibe merece este título. Pelé, um degrau acima, figura acima dos mortais. Mas voltando ao personagem argentino, ele brilhou na Copa de 1986 e fez um torneio memorável. Gol de placa, de mão e como fosse preciso. Com os braços acima da cabeça levantou a taça com a propriedade de quem carregou uma seleção nas costas.

O outro personagem, de uma Copa por enquanto dos latinos, também é sul-americano e meio-campista. Levantou a Copa do Mundo oito anos após Maradona, com méritos diferentes. Destacou-se com liderança e uma vontade furiosa de vencer. De símbolo do fracasso, Dunga passou a ser a cara da seriedade e da raça. Imagem, inclusive, alimentada pela crônica esportiva em sua maioria. Haja visto os comentários quando contratado por Ricardo Teixeira após a farra de 2006. No intervalo entre uma taça e outra para os sul-americanos se enfrentaram, em 1990, quando Maradona levou a melhor e deixou Canniggia na cara de Taffarel, desclassificando o Brasil.
De lados opostos nas chaves e longes de um confronto que só é possível em uma final de proporções épicas, Dunga e Maradona voltam a estar próximos com certas semelhanças. Desta vez do lado de fora, comandam suas seleções. Têm relações complicadas com a imprensa local e procuraram (e parecem ter conseguido) grupos fechados e com objetivos bem definidos. Ambos têm dois sentimentos, que simbolizados em órgãos, parecem sair pelos olhos.
Dunga o cérebro. É excelente estrategista. O seu retrospecto na seleção comprova isso. Futebol organizado e burocrático, salvo as jogadas individuais dos craques brasileiros que resolvem. Dunga sabe disso e organiza a defesa e deixa para o talento, de forma organizada, decidir. Parece fomentar conflitos externos à seleção para que desta forma unir ainda mais o grupo, aumentando a grana por vitórias. O espírito lutador e sistemático do Sul do País. Mas tem se perdido no outro órgão.

Maradona tem o coração. Ele é venal e impulsivo. Ama, odeia, grita, gargalha e chora. A tragédia, o tango, o drama e o exagero argentino. Ele é a perfeita tradução do espírito dos hermanos, habilidade, raça, deboche com certo tom de arrogância, muito amor e as emoções superlativas. Desta forma uniu jogadores, torcida, imprensa, enfim, todo um País. Uma troca de corações em busca de um objetivo em comum, levantar a Copa do Mundo 24 anos depois com o mesmo personagem que tinha tudo para ser música de Gardel. Mas Maradona tem usado pouco o outro órgão que se destaca.
A relação com o fígado é uma das principais semelhanças entre Maradona e Dunga. Ambos têm raiva, a usam, abusam e ao longo de sua história mostraram isso, mesmo que em momentos e formas diferentes.Mas agora, Maradona tem sido um líder mais coração que fígado. Este parece ser o tom da seleção argentina. Já Dunga parecer usar bem mais o fígado que cérebro, até achando que trata-se do coração. Mas há que se tomar cuidado para não misturar as emoções e confundir um órgão com o outro.
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16/06/2010 12h20 - Gibran Mendes - Comente esse post

Quando se fala em memória, muitas vezes vem a nossa cabeça imagens em preto e branco. Algo normal. Fomos acostumados a ter como lembranças imagens neste formato para demonstrar antiguidade. Convenções sociais, nada mais que isso.
Pois bem, lembro de que em 1994, quando eu tinha 12 anos, tive um sonho curioso que guardo na memória até hoje. Em um flash me vi no meio de um estádio de futebol lotado. Mas tudo era em preto e branco, menos uma coisa, ou melhor, 11 coisas. Ao meu lado nesse estádio estavam jogadores como Raí, Romário e Taffarel. Eu estava jogando pela seleção. As imagens do meu sonho eram lindas, tudo em preto e branco, a exceção da camisa da seleção canarinho.
Dezesseis anos depois minhas memórias foram coloridas e grandes ídolos também estavam ao meu lado, mas extremamente vivos. Tive a felicidade, na última segunda-feira (14), de ir até o jantar promovido pelo Gilson de Paula em homenagem a dois grandes ídolos da galera Coxa, o Tostão e o Cléber.
Dois jogadores que têm ligação direta com meu amor pelo Coritiba. Fazem parte de forma intrísica deste história. Explico: Nasci e passei minha infância e adolescência em Pato Branco, terra colonizada em grande parte por gaúchos. Meu pai, Coxa-Branca de coração, era uma das exceções na cidade que era muito mais azul e vermelha do que Alviverde e rubro-negra. Existiam torcedores do Coritiba, A. Paranaense e P. Clube, claro. Mas, eram as exceções.

Um dos fatores que dificultava a ampliação do número de torcedores, na época, era a ausência de transmissões televisivas de nossos times para o interior. Então aprendi a gostar de futebol e a torcer pelo Coxa na voz de Lombardi Júnior. Acompanhei aquela maravilhosa campanha do paranaense de 1989, com aquele time fantástico, com oito anos de idade, sentado em uma mesa na qual estavam meu pai e o seu super motorádio. Fantástico. Imaginava o Tostão, Chicão, Kazu, Osvaldo e companhia no que se ilustrava pela voz de Lombardi. Assim aprendi a amar o Coritiba.

Lembro até hoje do meu pai voltando de viagem com uma faixa do Coxa campeão. Sim, ele saiu de Pato Branco e foi até Curitiba ver para ver o time do Tostão ser campeão. Acompanhava o noticiário e tenho até hoje uma fita VHS gravada com os gols daquele campeonato e ao final com o saudoso hino do Vinícius Coelho: “Vencer é o seu lema, trabalhar é tradição. Salve, salve, Coritiba, eterno campeão”. Maravilhoso.
Dez anos depois, Cléber passaria a figurar neste cenário. A decisão desta vez era contra o P. Clube e o Coxa estava na fila há 10 anos, o último título tinha sido justamente com Tostão. A mesma mesa, o mesmo rádio e o mesmo pai angustiado. Cada gol do Coxa e do Cléber era uma explosão na Visconde de Nácar, lá em Pato Branco. Até que no final da partida Darci fez o gol e deu o título ao Coxa, mas quem marcou aquele campeonato sem dúvida foi Cléber.
Nesta segunda-feira um filme passou pela minha cabeça. Todas estas memórias foram revividas, em cores vivas e com eles, Tostão e Cléber, ali ao lado. O Coritiba, os títulos, as alegrias, meu pai, Pato Branco, aquela mesa e aquele motorádio. Tudo misturado e ali, juntos, ao mesmo tempo. Coisas que só a nossa memória pode nos trazer.

Por isso, deixo aqui meus parabéns em público ao Gilson de Paula. No peito e na raça organizou esta homenagem. Fez, com certeza, com que muitos filmes coloridos passassem na cabeça de todas as pessoas presentes, inclusive para Tostão e Cléber. Meus parabéns também a estes dois jogadores, cada um com seu estilo diferente, mas que marcaram época nas suas passagens pelo Coritiba. Que o Gilson consiga manter esta tradição de manter viva a história Alviverde que o saudoso Faisal fazia tão bem. Que muitas memórias coloridas possam passar em forma de filme em Alta Definição em nossas cabeças.
Fim de um ciclo
Na onda das memórias, aproveito para revelar aos fieis amigos e leitores que desde a última quarta-feira deixei a editoria do COXAnautas. Mas continuarei aqui, com o blog, que espero agora, possa ter mais carinho e atenção de minha parte.
Ciclo sem fim
Nesta mesma segunda-feira (14) completei oito anos ao lado do grande amor de minha vida, Letania. Importei esta gaúcha de Porto Alegre, que de tão parceira que é, dividiu comigo um dos meus maiores amores, o Coritiba.
Colorada de nascença, aprendeu a amar o Coritiba ao me acompanhar nos jogos no Couto Pereira. Não divide, muito pelo contrário, soma comigo o amor pelo Coxa e está sempre ao meu lado, seja na hora do rebaixamento, seja na comemoração do título. E isso vale para tudo.
A Letania meus sinceros e eternos votos de companheirismo, parceria e amor.
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06/06/2010 23h33 - Gibran Mendes - Comente esse post

Pedro era um menino bonito. Tinha sete anos de idade e uma rotina normal. Escola, algum curso e casa. Adorava aula de ciências e educação física. Como costumavam dizer, tinha a cabeça "avoada". Vivia no ar. Portanto, nada mais normal que adorar astronomia. Gostava de saber dos planetas, luas, espaço, universo e as estrelas. Quando pequeno perguntava à sua mãe se um dia poderia tocar as estrelas. Dona Muriel sorria e balançava a cabeça em sinal positivo antes de Pedrinho cair no sono.
Gostava tanto de estrelas que até aprendeu, com seu pai, um poema do Olavo Bilac que falava sobre elas.
- E eu vos direi: "Amai para entendê-las!
Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e de entender estrelas".
Sempre repetia com orgulho o poema. Aprendeu a ler e a gostar de ler. Dividia suas horas com o computador, os livros e o futebol. Ah, o futebol. Era onde gastava todas as suas energias, seja dentro de campo ou na arquibancada. Duas vezes por semana escolinha de futebol. Um dia era reservado para ir até o Couto Pereira com seu pai e outro para acompanharem o Coxa pela televisão. Coloque sua família e amigos neste cenário e quadro de uma vida feliz estava pintado em traços leves e coloridos.
Mas um borrão cinza deslizou como um pincel sobre a vida de Pedro, manchando a sua visão e a sua aquarela que começava a ser construída. Um oftalmologista foi convocado para fazer uma avaliação e a conclusão chegou da pior maneira possível aos olhos de todos. Pedro tinha uma doença incurável e em pouco tempo estaria cego. Talvez lhe sobrasse alguma visão, mas pouca coisa, algo como distinguir luzes distantes. Foi um choque para todos.

Passados os primeiros momentos de muita angústia, aos poucos ele foi amadurecendo sua relação com aquilo tudo. Pedro era dono de uma coragem invejável e que causava surpresa a todos que viviam em sua volta. Amplamente apoiado por seus pais, começou os preparativos para o que estaria por vir. A perda seria, como de fato foi, vagarosa como uma bola que caminha para o gol com um zagueiro em sua cola.
Pedro, desde cedo, adorava analogias. Ninguém entendia como um menino com aquela capacidade toda estava tendo um destino tão difícil. Dona Muriel respondia que era para Pedro se tornar ainda mais sensível e forte. Palavra de mãe não tem erro.

Uma de suas primeiras tarefas, enquanto ainda tinha visão, era aprender Braille. A estrutura basicamente é simples. Um retângulo, com as linhas mais longas na vertical, na qual há espaço para seis pontos. A combinação deles é que dá razão a uma letra e em sequência formam palavras. Pedro, em sua primeira aula, olhou para sua mãe e perguntou se aqueles pontos não lhe pareciam estrelas. Sua mãe piscou, com olhos marejados, como quem lhe dava toda razão do mundo.
- Então agora eu não só as tocarei, como vou aprender a ler estrelas!
Dois meses depois passou a ler em Braille com fluência, velocidade muito superior ao convencial. A sua sensibilidade para o toque nos pontilhados que o papel tem surpreendeu. Aprendeu o alfabeto e depois desenvolveu a sensibilidade como poucos previam, isso ainda antes de perder a visão. Fez alguns outros exercícios e preparou-se para o inevitável. A noite gostava de ficar olhando estrelas, enquanto ainda podia ver. Brincava de ler as estrelas, ora em Braille, ora no céu. Sua disposição especial formavam letras e códigos que Pedro repartia com seu pai e sua mãe.
Procurava não alterar sua rotina. Manteve todas as suas atividades, principalmente o futebol. Se jogar exigiria um treino diferenciado, com bolas específicas para a prática do esporte, o caminho até o Alto da Glória continuaria igual. As imagens dos campos, da torcida e das jogadas já estavam em sua cabeça. Tudo isso se desenharia sozinho com a ajuda do locutor.
Durante o processo de "borragem" da visão de Pedrinho ele não deixou de ir ao Alto da Glória. Viu o Coxa lutar contra a queda para a segunda divisão. Era sua última batalha daquela forma. Acompanhava tudo. As notícias, os comentários e as conversas que tomavam conta da cidade. Viu o Coxa ganhar no canto da galera contra o Palmeiras, a vitória suada contra o Atlético Mineiro e o gol no último minuto de Marcos Aurélio no AtleTiba.

Os olhos, com a visão já deficiente, choraram de alegria quando Pereira fez o gol de empate no Couto contra o Fluminense. Mas esses mesmos olhos choraram com a queda do Coritiba para a segunda divisão e com as tristes de cenas de violência ao final da partida. Pedrinho foi embora aos prantos e nos braços do pai que não sabia o que fazer para o consolar.
Naquela noite, enquanto os pais viam TV, Pedrinho deitado no sofá ficou olhando pela janela, nas estrelas, leu alguma coisa e deu uma pequena risada. Seus pais perguntaram o que havia acontecido, já que estava triste desde a saída do estádio e ele responde que nada e ficou ali, lendo suas estrelas.
Depois daquela noite o processo avançou rapidamente e ele, dois meses depois, já tinha chegado no limiar da visão máxima que teria. Algumas poucas luzes. Hoje Pedrinho já lê estrelas na ponta dos dedos.
Na sua visão lhe sobraram alguns poucos vultos, sombras e luzes. Mas seu olhar continua vivo com uma luz que sai de dentro dos seus olhos. Com oito anos mantém viva a alegria de viver e continua lendo livros como sempre. Planeja a vida e quer ser empresário. Deseja ter uma gráfica em Braille, levar literatura, sonhos e imaginação para quem não pode visualizar com os olhos as imagens que a mente cria.

Também continua acompanhando o Coritiba. Brinca que quando acontecer um novo Green Hell, com o Couto lotado, será tanta luz que conseguirá ver o Alviverde novamente.
Foi duas vezes para Joinville com seu pai. Acompanha o noticiário na televisão, no rádio e também na internet com auxílio de um software que lê o que está na tela do computador. Ouviu, com sua família, a partida do Coxa contra o Santo André. Ao final do jogo deu apenas uma risada, de canto de boca. Seu pai perguntou curioso qual era o motivo e Pedrinho respondeu:
- Lembra quando eu sorri no sofá depois da partida contra o Fluminense e vocês me perguntaram o que aconteceu? Eu li nas estrelas que o Coxa ia subir e ele vai subir.
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18/05/2010 21h00 - Gibran Mendes - Comente esse post

Bachorro era peão. Trabalhava em um canteiro de obras ali no Bigorrilho. Carregava cimento nas costas como poucos. Que força tinha o Bachorro, pensavam os seus colegas de profissão. O mestre de obras admirava a capacidade de Bachorro em levar materiais de construção para cima e para baixo. Por este motivo tinha seu respeito.
Bachorro ganhou uma foto, vestindo seu capacete azul, na viga principal da obra. “Funcionário do mês” estampava o cartaz que fez o jovem operário sentir-se o rei do pedaço. As mulheres que passavam em torno da obra nem sequer tinham ouvidos para os assobios e gracejos dos seus colegas de obra. Fixavam os olhos naquele homem que não parava de trabalhar e segundo relatos era boa pinta.
Bachorro teve um aumento em pouco tempo de trabalho. “Merecido”, garantiu o mestre de obras Valdir ao engenheiro que cuidava da edificação. Pão duro, pensou em questionar, mas decidiu não discutir. Dê-se então o aumento ao tal Bachorro, afirmou Carlos, o engenheiro.

Enquanto os dois conversavam, Bachorro viu na entrada do canteiro de obras um carro parado. Era conversível, ele nem sabia distinguir a marca. Dentro dele uma mulher linda retocava a maquiagem mirando um espelho que retirara da bolsa. Ao passar o batom e fazer o clássico “biquinho” Bachorro sentiu que aquela vida, que até então lhe era feliz, não servia mais.
Pouco importava se era amigo de todos na obra. Pouco importava se os vizinhos dos arredores, com os quais sempre conversava, lhe tinham carinho e o maior apreço. A gratidão de seu chefe que lutara por um aumento já não lhe parecia tão fantástica. A amizade dos colegas de obra, então, ficou para trás.
Bachorro queria ser engenheiro. Mas não sabia direito como. Conversou com alguns amigos de boteco, com um cunhado e um conhecido que tinha feito curso técnico de edificação e pegou umas dicas. Foi ter também com um conhecido, que lhe indicaram, rival do mestre de obras Valdir, que tanto carinho lhe tinha. Este rival, de nome César Marfoz, disse que teria solução ideal para o seu caso.

Disse que pelo perfil apresentado Bachorro tinha o necessario para ser um engenheiro, um grande construtor. Em pouco tempo poderia ter sua própria empreiteira e quem sabe investir no mercado internacional da construção civil. Parceria com grandes empresas como Gerdau então seriam o próximo passo. Os olhos de Bachorro piscaram tão forte que o cegaram. Todas as outras conquistas ficaram para trás.
Bachorro então largou a obra pela metade e abandonou o seu pessoal. A gratidão, virtude que lhe parecia latente, ficou perdida no meio do cimento e da argamassa de seu antigo trabalho. Partiu sem dar maiores explicações. O pessoal até que suspeitou, afinal, o seu jeito falante e alegre foi substituído por um silêncio preocupante nas últimas semanas.

Logo em seguida Bachorro se apresentou ao seu novo emprego. Marfoz conseguiu a ele um trabalho fantástico, em sua opinião. Começaria a comandar uma obra pela primeira vez. Era a construção de um sobrado, ali no Uberaba. Bachorro tinha a sua disposição uma equipe de duas pessoas, pouco pelo prazo e tamanho da construção.
Não era o engenheiro, como lhe foi prometido. Era uma mistura de mestre de obras com peão. O salário, embora um pouco maior, não lhe trouxe o conforto que imaginava. A canseira e a responsabilidade, sem o carinho do antigo trabalho, foram lhe abatendo. Marfoz sumiu. Aparecia de vez em quando para lhe cobrar mais agilidade e as palavras de incentivo foram trocadas por cobranças ásperas.
Cansado, sem dinheiro e infeliz Bachorro já não gostava tanto de trabalho. Lembrava com saudades do tempo em que tinha carinho, conforto, dinheiro e proteção. Esta falta de felicidade fez com que fosse um mau chefe, embora, tivesse apenas duas pessoas para comandar. Bachorro deixou de ser aquele grande profissional, afinal, atropelou uma etapa em sua carreira. Deu um passo maior que a perna.
Certo dia, seus dois funcionários, insatisfeitos com atrasos no salários por parte e as ordens duras que vinham de cima para baixo, faltaram. Bachorro sentiu todo o peso do mundo em suas costas. Precisava continuar a obra sozinho naquele dia. Até que na pressa, infeliz e por um erro de cálculo que deveria ter sido feito por um engenheiro, além da ausência da concentração necessária caiu da laje do sobrado que construía, que também veio abaixo.
Seu corpo despencou como a felicidade e o carinho que tinha deixado para trás. A cabeça partiu no tijolo onde há pouco estava sentado, lembrando do olhar paternal do seu Valdir. O pescoço dobrou-se como sua vaidade não foi capaz enquanto o corpo cansado chocou-se contra o chão e descansou para sempre.
No enterro, ninguém para chorar e lamentar. Bachorro era sozinho. Ou melhor, ficou sozinho. Bachorro deixou para trás tudo o que conseguiu conquistar em busca de uma aventura. Não esperou o tempo certo para dar um passo adiante. Este foi o fim de Bachorro, o peão que quis ser engenheiro antes da hora.
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